O pianista

Às seis em ponto ele está de pé, diante da plateia, esguio como um bailarino. Mas é, na verdade, um pianista. Esperava encontrar um homem de meia idade, barriga saliente, calvície em estágio avançado. A dedicação exclusiva ao dom que alinhava os ouvidos às mãos justificaria o abandono da aparência. Um pianista não precisa de vaidade e sim de obstinação. Se, por um lado, o dedilhar compulsivo o aproxima da perfeição artística, por outro, o afasta da boa saúde. Assim é.

Mas essa figura um tanto amarelada pelo confinamento nos sucessivos conservatórios, responsáveis por pavimentar sua evolução musical desde a primeira infância, só existe na minha imaginação. Aquele que está a poucos passos de mim, prestes a iniciar o recital intimista, cercado por não mais de cem cadeiras, é um garoto. Como disse anteriormente, esguio como um bailarino. A barbicha amena e a timidez acachapante escancaram sua inexperiência. Temo por ele. Mais do que isso: coloco em questão sua capacidade de domar o teclado bicolor.

É apresentado como um brilhante aluno da escola de música. Duvido. Se fosse mesmo acima da média emanaria mais segurança. Ok. Vamos lá. O rapaz agradece a presença de todos e anuncia o repertório daquele fim de tarde molhado. Quase não o escuto, mesmo estando a poucos passos do piano. Sem jeito, ele se senta na banqueta. Muito baixa. Gira as duas rodas pregadas nas laterais do assento. Exagera. Retrocede duas voltas. Está bom. Move ligeiramente a banqueta pra frente. Testa o pedal. Estala dos dedos. Alonga a coluna. Suspira. As duas mãos sobrevoam as teclas como se quisessem imantá-las com alguma vibração particular ou o inverso, como se quisessem sentir a energia do instrumento antes de fazê-lo entoar Chopin, Brahms, Ravel e Rachmaninoff. Nessa ordem.

Vem a primeira sequência. Estremeço. Um gigante. Estou às suas costas. Me ajeito na cadeira. Não pode ser, tão novinho. E tão feroz. Cavalga por um terreno há muito demarcado. Conhece cada nuance, cada alto, cada baixo. As mãos deslizam de ponta a ponta, ora com fervor, ora com doçura. Seu corpo inteiro se oferece à música. As pernas marcam o ritmo, o quadril ginga à esquerda e à direita, a coluna dá suporte aos ombros, muito bem encaixados, os braços ondulam enquanto os dedos se afastam num alongamento sobre-humano e as falanges se afundam com tanto gosto que chego a me arrepender. Por que não pedi a meus pais para fazer aula de piano?

Tento fechar os olhos para melhor sorver as notas mas não consigo me desvencilhar da coreografia. O pianista é, de verdade, um bailarino.

Uma hora mais tarde, ele se ergue, sem disfarçar a vergonha. Agradece a presença de todos e nos deixa com um baixíssimo até breve. Ligeiro, atravessa a cortina de veludo vermelho. Garoto, outra vez.

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Os chinelos

Esses dias me pus a pensar em chinelos. Não nos calçados propriamente ditos, mas no hábito, quase religioso, de deixá-los ao lado da cama, emparelhados, inertes, como vigias silenciosos a guardar o nosso sono e a nossa intimidade.

Pode parecer um gesto mecânico como tantos outros que se sucedem num mesmo dia, nos arrastando para o seguinte e para os dias à frente deste. Qualquer ato humano pode ser somente isso. Inércia. Um sopro vindo não se sabe de onde que, em sua gentil aparição, acaba por virar a página sem que precisemos acordar a musculatura do braço.

No caso específico dos chinelos, prefiro ver o despacho desses humildes servos como um ritual noturno. Indo além, como um ato de fé.

Se antes de me deitar estaciono os chinelos na exata posição dos pés, é porque dou por certo o meu despertar; é porque confio no ímpeto vital que me ejetará do leito diretamente para o sol; é porque espero encontrar o mundo, esteja ele como estiver; é porque torço para que o mundo me encontre, esteja do jeito que estiver; é porque qualquer coisa pode mudar; é porque os planetas estão em trânsito; é porque me ofereço ao tempo, caso ele queira gravar em mim mais um  dos seus rastros; é porque desejo ser útil – Deus, de alguma forma, me faça ter utilidade -; é porque não quero ser apenas útil; é porque anseio pela poesia – Deusa, me permita enxergar o poema que habita as esferas menores -; é porque aprecio o lusco-fusco; é porque me disponho a seguir farejando respostas; é porque aceito levar comigo esses buracos; é porque almejo, um dia, ser mais inteira; é porque ofereço minhas células ao inédito; é porque fantasio um sorriso de encantamento; é porque clamo pela palavra justa; é porque sonho com a palavra afago; é porque prometo, só por hoje, ser mais branda; é porque busco me apaziguar com o que sempre será; é porque aguardo os grilos; é porque escolho tomar a sopa; é porque, perto da meia-noite, ao me sentar na cama e me desvencilhar dos meus chinelos, quero me deitar com a vida e, em nome dela, acordar. Enquanto me for permitido.

Terra

Não esperava encontrá-la assim, após um preguiçoso virar de página, numa tarde branca, de poucas forças. Se tivesse desistido de folhear a revista para checar o celular ou simplesmente pendurar os olhos em um ponto aleatório através da janela, não a teria visto. Ou melhor, ela não teria aparecido para mim.

Pois lá estava ela, a Terra, suspensa no breu, como a viram os astronautas e como passamos a vê-la, nós todos.

De susto, arriei. E me sentei no chão da Lua, onipresente no primeiro plano da fotografia. Não sei como, mas, daquela distância abismal, enxerguei, nas funduras do nosso casulo azul, um grão. E, dentro dele, a dor humana. O que, até aquele momento, tinha a extensão do cosmos, somada ao peso de todas as estrelas, naquele instante, passou a caber num minúsculo grão.

Por efeito da perspectiva ou pelo arroubo de beleza – ou, uma terceira hipótese, por me descobrir viva naquela tarde – a face mortal da existência  se transfigurou em matéria ardente, multiplicação celular, vir a ser, futuro. Era tão óbvio lá de cima. Uma semente, embalada pela Grande Mãe Gaia, contém mundos, galáxias inteiras, principalmente aquelas, por ora, desconhecidas. Além do mais, do barro nascemos, ínfimos e, se a ele voltamos, enlameados de perplexidade, apequenados por todas as coisas que nos escapam, é para que possamos refazer nossos contornos, renascer em corpo e em espírito.

Chafurdava nas entranhas da Terra quando a atendente anunciou minha vez e, segundos antes de fechar o exemplar, algo se fez grito:

– Nenhum tormento é estático, tudo é água – berrou o planeta, para que, da Lua, eu, astronauta, o ouvisse.

 

De volta ao fogo

A noite já havia se assentado quando a mulher fora atraída pelo crepitar da lareira.

Disse qualquer coisa a quem estava por perto e, como que envolta num feitiço, deslizou para junto do fogo.

Na saleta, uma velha bordava. Os estalos da lenha embalavam seu espírito que, por sua vez, modulava o subir e descer das mãos. Mantinha os olhos fixos no trabalho. Os óculos bem encaixados na ponta do nariz. Sequer espiou a recém-chegada.

A mulher, hipnotizada pelas chamas, compreendeu.

Adentrara um templo.

Um lugar de repouso.

Rapidamente, intuiu que, mesmo a fala mais cordial, pelo bem da convivência, seria uma desonra à atmosfera ancestral manifesta por aquela alquimia, tão antiga quanto necessária.

Calou.

E, nesse mesmo instante, como se dissesse a senha correta, sentiu o calor amolecer seu corpo e abrandar seu coração. A cabeça desocupada nada podia diante do corpo inebriado por aquele reencontro. Assim, rarefeita, mas encarnada, viu-se diante de outra lareira, sentada numa cadeira de balanço, de saia longa e xale. Cerzia um pedaço de pano. Protegida do frio e da noite.

Olhou para a velha, quieta como uma pedra. E sentiu profundo respeito por seu silêncio.

Gota a gota

Na hora da pressa mais aguda e atônita, quando os sinos da Ave Maria badalam para ouvidos surdos, e as pernas se colocam em fuga, e os corpos se amontoam debaixo da terra, e até o mais apaziguado ser humano é invadido por uma agonia anárquica, e todos querem passar, e todos querem chegar, e todos não passam de uma massa ensandecida, vejo o homem amputado.

Imune à selvageria da baldeação, ele vai no seu passo único. Gota a gota. As muletas por companheiras. Alheio à manada, saltita com o pescoço aprumado – nem derrota nem soberba. Concentrado, mas sem rugas de esforço, feito um atleta experiente, ele avança. E vê. Na sua meditação compulsória, o homem amputado vê o que ninguém vê.

Como apenas o vejo, não as coisas que ele vê, me ponho a imaginar as revelações que se mostrariam, como aparições místicas, somente a ele. Ele, o eleito.

Vejamos.

Dorsos curvados, quase vencidos, mas ainda fiéis à luta; o sono imaculado do bebê sob a fralda finíssima que a mãe ajeita e de novo ajeita enquanto equilibra a sacola apoiada na dobra do cotovelo; o rosto espinhento da adolescente que faz do cabelo cortina para sua vergonha; a truculência à espreita no craquelado-vermelho-sangue dos olhos do segurança maior do que todos; os namorados se esgueirando e se contorcendo para manter as mãos enlaçadas em meio à enxurrada de braços e ombros e troncos e quadris e nádegas; a pele amarela do homem que definha debaixo da roupa folgada e leva consigo uma sacola plástica da farmácia popular; e tantos outros homens e mulheres tentando chegar, todos os dias, em algum lugar.

Enquanto não chegam, perdem seus contornos e se fundem num imenso corpo-aceleração-que-tudo-atropela. Já o homem amputado se move, como a vida, gota a gota.

Feliz Ano Novo

No último dia do ano, o céu despeja suas águas com fúria. Seria um recado? Um prenúncio? Um banho, prefiro acreditar. Limpeza necessária, por isso, a veemência do temporal. Por trás de cada trovão, ecoa o mandamento celestial: “Tenhas a coragem de limpar as sujeiras mais arraigadas, quase pedras de tão calcificadas”. O velho “deixar ir”. Fácil não é. Algo em nós quer virar pedra. Permanecer. Feito as estátuas da Antiga Roma. Os séculos se sucedem sem descanso e elas continuam lá, crispadas de pompa e orgulho. Queremos mesmo um novo ano? Aceitamos sacrificar nossas estátuas em nome do que não conhecemos, apenas supomos? Eis aí um ato de fé, mesmo para aqueles que em nada creem.

A chuvarada se foi. O “bombardeio” sobre o telhado cessou com a mesma contundência da sua chegada. Deixou um vácuo. Silêncio abafado, logo tomado  pela feliz cantoria dos passarinhos. Migro da Roma Antiga, tão tumultuada, para os campos do Éden ou de qualquer outro paraíso terrestre. Eles existem. Em algum lugar, eles existem. É por isso que vamos,  como lembra o poema do português Sebastião da Gama: “Pelo sonho é que vamos, comovidos e mudos. Chegamos? Não chegamos? Haja frutos ou não frutos. Pelo sonho é que vamos”.

Mas, antes, é preciso estar limpo.

Que o próximo ano irradie a luz de que necessitamos!

A menina do baú

Dia desses assisti a um debate sobre o fundamental hábito da leitura. Como firmar o elo entre escritor e leitor? A quem caberia tal responsabilidade? À escola? Aos pais? Ao governo? O papo enveredou por essas vielas ainda tortuosas e mal iluminadas. Tristeza nossa.

Alegria minha. Imediatamente uma faísca de memória me trouxe a menina do baú. E com ela a consciência da fartura, somada à sorte de ser a terceira da fila. O posto de caçula, nem sempre confortável, me permitiu, em compensação, o regalo dos regalos: desfrutar um baú abarrotado de livros.

Minha arca-biblioteca-encantada foi crescendo à medida que meus irmãos liam por imposição escolar aquelas simples brochuras – na visão deles, não na minha -, posteriormente arremessadas dentro da caixa de madeira embutida, que fazia as vezes de cabeceira da minha cama. Crimes nebulosos, amores inocentes, achados do nosso folclore, amizades de ruas (naquela época não se falava em condomínios), medos e descobertas atrelados à inevitável marcha do crescer. Tudo muito bem prensado pelo meu baú.

Quantas vezes manuseei aqueles volumes. As palmas das minhas mãos para sempre recordarão o prazeroso expediente repassado por anos a fio. O compromisso consistia em apanhar os exemplares, perfilá-los, agrupá-los, bagunçá-los, pra depois inventar uma nova ordem, num eterno recomeço. E o cheiro. Hum. Tão familiar, tão meu. Ainda bem que a rinite estancou no irmão do meio. Saí ilesa. Caçula tem uma sorte danada!

Sorte maior foi ter carregado meu baú até aqui. Claro, a cama de madeira com o caixote acoplado partiu na caçamba de uma kombi. Eu adolesci; ela procurou outra criança. Os livros, por sua vez, passaram anos enfurnados em caixas lá no alto do maleiro. Até que, num rompante de desapego, os libertei. Desde então, a biblioteca infanto-juvenil do bairro espichou um bocadinho. Mas nada disso altera o fato de que até hoje meu tesouro de papel vela minhas noites. E acende meus dias.

A menina do baú era rica. Talvez não soubesse disso. A mulher que ela veio a ser desconhece fortuna maior.

Gratidão

O Dia de Ação de Graças passou. Mas não a minha vontade de agradecer.

Justo nesse dia, ainda há pouco, um agradecimento bateu à minha porta. Era dia de fechar os olhos e sentir gratidão. Àquela altura, hora do almoço, não sabia. E, por essas tramoias do “acaso”, calhou de eu receber, primeiro, a graça.

O homem, falando por toda a família, agradecia uma história. Uma história de amor e de dor. História de uma saudade.

Acomodei o gesto emocionado na dobra mais quente do meu coração. Lá ele ficará.

Mas, desprevenida – como antever a chegada da graça? -, fui incapaz de devidamente embrulhar e devolver-lhe a minha gratidão.

Faço isso agora.

De mãos coladas, agradeço o visitante pela generosidade de reavivar a minha fé na escrita. Dou graças por ele, do alto do seu calvário, atestar que as palavras podem ser bálsamos predestinados a repousar no coração dos homens.

Sinal de vida

Hoje o dia me pediu uma palavra, um aceno. Como o pai aflito diante da mudez do filho. Se ele soubesse quanto barulho se esconde boca adentro, talvez não me procurasse. Mas o fato é que o dia entrou pela janela e me pediu um sinal de vida. Respondo. Ou melhor, conto. Prefiro contar por onde a vida tem andado.

Outro dia, ela se enfiou num vaso. Intrusa. Descarada. Apareceu verdinha como se dona fosse da terra há tempos ocupada pela suculenta que multiplica seus gomos quase como por milagre. Como pode viver e se reproduzir com o mínimo de água? E nós aqui tão necessitados de tanto. Agora, as duas partilham o mesmo diâmetro. Estão bem. Crescem lado a lado. Como irmãs.

Dia desses, a vida se fez gato. Uma amiga não suportou os gemidos que fizeram doer a madrugada e adotou o bichano como filho. Acostumada a ser susto, a criatura ganhou nome e sobrenome. Comida, teto e chamego. Descobriu que pode se erguer e andar sobre o carpete quentinho. Descobriu que pode miar. De alívio. E de alegria. A dona, por sua vez, descobriu mais uma sobre a vida. E sobre si mesma.

Por essas semanas, também preciso contar, a vida se instalou na minha testa. No começo, era uma leve dobradura, uma linha indecisa num papel ainda virgem. Agora é um traço definitivo. Um carimbo da existência que ora me espanta, ora me agrada. É a vida se imprimindo na face exposta ao mundo. Talvez um esboço ínfimo da paisagem que se desenha do lado de dentro. Assim espero. O fato é que o tempo escorre. E eu corro, deito, levanto, me encolho, me estico. No momento, não sei bem o que fazer com ele. Talvez, só precise deixar que ele se faça tempo em mim. Para isso existe a palavra – salvadora. No tempo da palavra, eu e você, que me lê, estamos como que foragidos do tempo. No tempo da palavra, a vida é outra. Essa outra vida que nutre o bebê que sempre seremos.

Por falar em bebês, a vida tem andado em uma porção de barrigas. Grávidas. Quantas grávidas me rondam. Quanta alegria pode caber numa semente. Manuela, Beatriz, Rita, Joaquim. Aqui fora há muita vida, o tempo todo, em todo canto. É tanta vida que, às vezes, de espanto, calamos. É tanta vida, que, às vezes, por alento, contamos. Para responder aos dias, vivemos. Mas isso é conversa de gente grande. Por ora, desejo a vocês uma bela chegada.

Brinque, criança, brinque

Por que você está sem graça hoje?, perguntou o menino com as sobrancelhas espremidas. Ele poderia ter ido mais fundo com sua espada. Mas, equilibrando-se entre a possibilidade de estar bravo ou decepcionado, ou as duas coisas, algo nele, amor talvez, quis poupar a mulher da verdade. Disse somente metade do que gostaria de ter dito. Mas ela sabia. E naquele instante pôde enxergar na queixa do menino o rastro azedo de seus dias. Como explicar para a criança que os adultos por vezes se cegam? A graça se desprende dos olhos. Só há breu. Por um tempo. Um tempo sem aviso. Mas não se canse de mim, ela quis dizer. Vou voltar. Um dia vou voltar. E daí poderemos rir o mesmo riso. Estou até vendo. Vamos nos lambuzar dessa alegria boba, que chega pela barriga e faz o corpo inteiro coçar de tão bom que é ser feliz. Façamos melhor. Vá brincando aí, rente às minhas pernas. Escolha um pedaço de tapete. Não vou a lugar algum. Prometo. Vá enchendo os instantes, rodopie, vire uma cambalhota, embarque num foguete e visite a lua, duele com dragões e, quando o cansaço chegar, cochile numa nuvem de algodão. Estarei aqui. Faça isso. Vá saltitando. De brincar em brincar, o dia será outro e mais outro. E quando estiver longe, no alto da árvore, agarrado ao cipó, ou do outro lado da colina, onde é bom de soltar pipa, nem perceberá que eu me sentei ao seu lado no tapete. E que agora meu rosto todo sorri.