A menina, a avó e o touro

A menina de cinco anos desconhecia as letras, mas amava as palavras. Na verdade, amava o que as palavras criavam ao seu redor. A noite já bem instalada, o quarto boiando na luz amarela do abajur, a avó de pijama com seu cheiro doce e as duas ali, radiantes, sob as cobertas. Vó, lê pra mim a história do touro Ferdinando? Pela centésima vez, a avó sorri, abre o livro de capa dura cor de rosa e a menina se vai para onde não se cansava de ir. Espanha, o país das touradas, como as primeiras linhas anunciavam.

Poderia passar a vida visitando o quarto da avó todas as noites. Era lá e em nenhum outro lugar que podia se encontrar com Ferdinando, o touro que conheceu a maldade dos espertos por ser bom. Mas que também arriscou a vida pelo justo, pelo correto. Era só lá e em nenhum outro lugar que a menina podia se nutrir do amor mais inesgotável que conhecia. Amor de vó.

Um dia, ela trouxe a novidade. Vó, consigo ler. Agora sou eu que vou contar a história do touro Ferdinando. Uma nova era se abriu. Noite após a noite a menina enchia os ouvidos da avó com a saga do touro manso. Às vezes, a repreendia, como a professora insatisfeita com a aluna avoada. Vó, para de dormir. Outras tantas vezes, seguiam enlaçadas. Até festejarem com palminhas a derradeira coroação de Ferdinando. De volta ao lar e ao jardim que tanto amava.

O livro voltava para a mesa de cabeceira, mas a menina e a avó prosseguiam alisando o amor que não via outra maneira de seguir que não fosse sendo repleto. Mas daí o avô chegava da sala, já de pijamas com botões e muitas listras, e as duas tinham que desmanchar o que as palavras criavam ao seu redor.

Não se sabe o dia em que a menina deixou de visitar o quarto da avó com seu livro predileto. Seu primeiro livro. Só se sabe que, como a vida quer, ela passou a se enlaçar com outros encantos. O touro continua na estante. E em seu coração de mulher feita. O amor de vó, esse não se foi, nem se vai. Pertence à menina. É a garantia de que ela saberá amar.

Certas tardes

Quem acredita que as noites são especialistas em sedução desconhece o apelo de certas tardes. Confesso que a maioria delas passa em rota batida até sumir no escurecer. Acendo as luzes para, como diz minha mãe, não forçar a vista, e recebo a penumbra assim, como um robô programado para apertar interruptores.

Mas certas tardes, ah, certas tardes não aceitam meu desprezo. Não mesmo. O céu pode estar cinza-aborrecido ou da cor da laranja. O cenário é o que menos importa. Crucial é ouvir o chamado. Ele é senhor quando ordena: “Pare um pouco e esqueça de tudo o que insiste em ser lembrado minuto a minuto, essa escravidão mental sem fim, e se ponha a perceber a vida acontecendo em você”.

Deus meu, há uma vida acontecendo em mim, estremeço. Vida esta que passaria em horas mortas não fosse o convite de certas tardes. Então, largo tudo e vou para o supermercado mais próximo, aquele cuja lanchonete faz divisa com a seção de flores. Pra mim, não há jeito melhor de entardecer do que bebendo café e comendo bolo, o mais simplório da vitrine. Tomo as plantas por acompanhantes e ali permaneço.

A mágica acontece invariavelmente entre 16:30 e 17:30.  Nessa hora esvoaçante, desgarrada do tempo, consigo sentir o vagar das ruas, ainda poupadas da impaciência do rush. A brisa encontra a pele. O canto dos pássaros tem a pureza de um acorde bem dedilhado. O coração parece absorver o morno do sol poente. O corpo inteiro reage sorrindo. Estou na cidade, mas tudo ao redor – e lá no fundo – é calma. Só posso concluir que certas tardes me chamam para ver e crer na brandura da paz.

Sobre carros, consertos e perdas

O homem que perdeu o filho conserta o motor do carro. A silhueta curvada sob o capô. Os pensamentos em ferramentas, engrenagens ruidosas, fumaça. Será possível? Tem de ser. Torço, da outra ponta da rua, sem ser notada. O que diria a este homem recém-dilacerado? Como flagraria seu desespero a meio metro sem transparecer pena? Como ofereceria algum consolo se sequer conheço o amor maior de todos – muito menos o precipício mais escuro?

O que faço pelas costas do homem debruçado sobre o motor, a 300 metros de distância, é quase infantil. Como acreditar que se a gente imaginar com força, olhos espremidos e dedos em X, a realidade nos atenderá. Pois foi assim que torci para que, naqueles instantes de dedicado serviço sob o sol, a utilidade mais banal o amparasse como a mão que salva. Torci para que, protegido pela tampa metálica, engajado na missão de trazer o carro da família à vida, ele encontrasse alguma trégua, um lapso de esquecimento, um dado raciocínio que o sequestrasse do seu drama, uma anestesia qualquer.

Mas como, se o filho agora ausente sempre o acompanhara nos cuidados solicitados pelos automóveis de vez em quando? Eram os dois amantes das máquinas. Juntos arrumavam, limpavam, poliam, lustravam. Faziam parte da rua como os paralelepípedos, as guias e as árvores mais resistentes. Era bonito passar e cumprimentá-los. Pai e filho partilhando o mesmo zelo, o mesmo empenho, o mesmo tempo. Ele grisalho, senhor. A cria adulta, tão homem quanto o pai. O que conversavam para além dos carros e dos reparos? De que suas risadas se abasteciam? O que seus silêncios compreendiam?

À essa altura do meu voyeurismo, escolho mudar o rumo da torcida. Que esse pai se lembre de cada conversa, de cada piada, de cada camaradagem. Que possa sorrir ou se emocionar sempre que uma lembrança vier se intrometer em seu serviço. E que, um dia, assim permitam as forças todas que nos levam adiante, possa se pacificar ante as coisas que não têm conserto.

Ao final da labuta, torço para que o homem em pé sob o sol feche o capô e leve o filho para passear. Por favor, se mantenha firme. Espremo os olhos. Até que a próxima avaria o solicite e o convença a remexer nas alegrias que ficam.

 

Dois

As madrugadas eram dela. Sempre foram. Tinham combinado. Os olhos tardariam a se fechar e, como prêmio, a cidade desapareceria. Restaria ela, toda, só. Ela e sua pequena célula de vida. Nas horas em que o mundo se retira para se esquecer, escutava seu coração, seu estômago, a lida dos pulmões, uma fisgada no pé. Somente nessa ausência de tudo o que bordeja a vigília conseguia enxergar as funduras que se abrem por dentro. Junto com o espanto – algo nela pulsa, se contorce, sobe e desce, espeta -, emergia a balbúrdia das vozes. Vence quem se desgarrar do tumulto. Elas também tinham acerto. Existência. Gostava de auscultar cada cifra menor dessa sinfonia autônoma. O que se oculta sob o clarão do dia, legítimo se torna no escuro.

Sem se opor, muito menos lamentar, perdera as madrugadas e, com elas, o contorno de célula. O apartamento inerte ecoa agora os suspiros dele. Jorro inevitável após longas baforadas. Jeito de conversar com a noite. Da varanda, o som avança como o viajante que intui o melhor caminho. Cruza a sala, atravessa as frestas da porta, espreita o quarto e, num afago lento, a envolve na cama. Capa que se cola ao corpo. Pele sobre pele. Dupla. Dois respiram a mesma madrugada. Antes de penetrá-la, o ar que ele devolve ao mundo serpenteia livros, discos, quadros, universo, outro, a ser possuído. Com os olhos rendidos, quase esquecida de si, ela saboreia a confirmação. Não mais exílio noturno. Só amor. Pode dormir. Em paz.

Breve reflexão sobre o amor e a tosse

“O amor é inevitável como a tosse”, compara a atriz em cena da peça Arrufos. Um encanto produzido pelo grupo XIX de Teatro.

A frase atinge o coração da coisa.

Vejamos.

A tosse sobe dos pulmões e estoura na boca, assim como a onda arrebenta o que estiver na sua rota.

Tanto em uma quanto em outra há evidente violência. Tossir vezes seguidas sobrecarrega o diafragma. Levar um caldo é experiência a não se repetir.

E o amor?

Tal qual a tosse, pode se mostrar contido, enviesado, sôfrego, escandaloso.

Sangrento.

Sempre fatal na sua aparição. Ainda que venha nos salvar.

Quando se vê, está feito.

Mas, ao contrário da tosse, devasta ao desaparecer.

Ou quando tarda a estourar em nossa boca.

O horizonte é verde-ondulado

Da minha janela avisto montanhas. Moro em São Paulo. É um milagre. Bem sei. Preciso zelar pela graça que é, todos os dias, repousar os olhos em ondas que almejam o céu. Adulo esse presente como se espantasse o pó do cristal. Ou desse colo ao recém-nascido. Cuidado. Muito cuidado. Se torço levemente o pescoço, para um lado ou outro, estou perdida. Enquadro edifícios. Corpos arbitrários de concreto. Meu verde horizonte se vai. Vence a vocação da cidade. Construção civil. Para-raios. Confinamento. Mas se volto a mirar firme lá adiante, negando que a visão também escorre pelos cantos, estou livre. Respiro e sonho nessa nesga que me sobra como a migalha ao faminto.

Montanhas são camaleoas. Encantam por serem muitas. Hoje se escondem sob um manto rarefeito. Qualquer matiz entre o cinza e o branco.  Mas na madrugada vem a chuva. Ahhhh. Sei que amanhecerão limpas e nítidas como se finalmente pusesse os óculos para melhor enxergá-las. Seu verde nessas horas lembra a bandeira da infância no desenho escolar. Verde-louro. Verdura eterna. Mais vida. Mais amores. Por gerações.

Em dias de sol exibido, sei que continuam ali, atrás da bruma incandescente. Porém, meus olhos fugitivos se espremem. Encará-las nesses momentos é penoso. Arde. Melhor deixá-las torrar e voltar para a toca. Mais tarde a gente se encontra, prometo antes de desenrolar a persiana.

A tarde se cola à noite. Posso ver as curvas alaranjadas das rochas, agora, bronzeadas. Tudo é morno e calmo. Degusto os últimos instantes em sua companhia. Um pássaro estaciona no telhado do vizinho. Distraio-me e pronto. O breu as levou de mim. E se nas alturas as estrelas me ignoram, estou sozinha. Beleza que Deus dá, só amanhã. A moça do tempo prevê céu de brigadeiro. Dia de encontrar montanhas de conto de fadas.  Aqui mesmo, na cidade empedrada.

Conviver é preciso

A pracinha é a porção arbórea mais próxima de casa. Recorro a ela nas tardes amenas e, por isso mesmo, avessas à ditadura do rendimento físico. Uma fita de asfalto a bordeja e nos serve de pista. A mim, às crianças montadas em suas bicicletas e em seus patinetes, aos atletas amadores, aos cães vadios e aos engomados, aos pedestres interessados em se emburacar no metrô, aos idosos em reabilitação, aos contemplativos de queixo erguido para melhor avistar a copa das árvores e também aos casais com seus bebês engolidos por carrinhos corpulentos.

Certa vez, peguei pela frente – e pelas costas – uma conjuração desse tipo. Pai, mãe e filhinho em repouso sobre rodas. A cada volta completa, propositalmente na delonga dos retardatários, tinha a chance de fisgar uma lasca da conversa. Fui petiscando, pestiscando, pestiscando, até encher o prato. O conflito central da narrativa poderia ser assim resumido: chefe de família investe esforço quase nulo para prover o sustento do lar.

A cada giro um novo argumento se encarregava de elevar o volume da arenga conjugal. De maneira que não precisei mais espichar os ouvidos. O conteúdo da discussão se enroscava em meus passos e me acompanhava uns bons metros; perfurava a célula privada do matrimônio para ganhar a acústica do coletivo.

Logo o bebê acordou e pôs-se a berrar. Com razão. Os adultos inflamáveis arruinaram seu passeio vespertino como também o meu, o das crianças montadas em suas bicicletas e em seus patinetes, o dos atletas amadores, o dos cães vadios e o dos engomados, o dos pedestres interessados em se emburacar no metrô, o dos idosos em reabilitação e o dos contemplativos de queixo erguido para melhor avistar a copa das árvores. Toda a comunidade atraída pelos encantos da tarde amena, espremendo a convivência numa fita de asfalto. Um dia a gente aprende.

O que fazer com nossos velhos?

Algumas ideias.

Dizer a sua mãe estancada diante das flores expostas no supermercado: “Minha querida, você já colocou três vasos no carrinho. Além do que, em casa não há mais espaço para flores. Vamos, vamos”. O braço da filha, firme como bengala, vai conduzindo os passos miúdos da senhora para longe da beleza que adoçara sua tarde de outono. Quanta lentidão. Quanta paciência. Quanto amor.

Adiante, no corredor das frutas, outra mãe. Velha. Espera a filha ensacar as maçãs. A pele curtida repousa sobre os gélidos braços da cadeira de rodas. Ela olha para algum lugar. Duvido que enxergue alguma coisa por entre as brumas coladas à face. Mas ela está ali na tarde morna. Sentada em sua cadeira de rodas. Se seus olhos desistiram de ver, sua filha não desistiu de lhe mostrar o mundo.

Outro dia, outra velha. Esta se ampara no amor da neta. Amor que, por sua vez, se escora na gratidão. “Avó melhor que essa não há”. A matriarca que foi alimento, colo, carinho por nada – e por tudo -, hoje lança seu corpo-impotência sobre o corpo-compaixão da neta. Assim vão se movendo – e aguentando. Da cama para a cadeira de rodas. Da cadeira para o sofá. Do sofá para a cadeira estacionada em frente à mesa da cozinha. E de volta à cama. Quanto peso. Quanta força. Quanto amor.

Ai de nós, promessas de velhice. Teremos em nossa retaguarda zelo igual?

Salve, Djavan!

Djavan, o guardador de carros da rua detrás, bem poderia ser meu vizinho. Todo dia me vê passar e, não contente em acenar, grita do outro lado da calçada: “Oi, tia”. Vez sim, vez não, pergunta pelos meus sobrinhos. Se esquece os nomes dos pequenos, pede que eu socorra sua memória. Outro dia, me interpelou preocupado: “Você emagreceu demais. Está tudo bem?”. Tempos atrás, sumiu. Tantas possíveis tragédias me rondaram naquele período…Até que reapareceu, mancando. Contou que foi atropelado por um ônibus e, sem grana para a fisioterapia, recuperou parte da mobilidade andando de bicicleta pelo bairro. Djavan nunca me pediu esmola ou prato de comida. Portanto, nada me deve. É tão somente uma alma gentil, como pouquíssimos condôminos do meu edifício.

Djavan, o guardador de carros da rua detrás, ainda vive. Mas já é possível sentir as baforadas da morte em seu entorno. Franzino sempre foi. Questão de genes. Agora, se arrasta pelo bairro escorado por ossinhos de criança a espetar a pele. Nas mãos, dois canos de PVC a emprestar-lhe alguma misericórdia. Numa existência de improviso em improviso, até na hora da morte é preciso remendar. “Se eu ficar em casa sem trabalhar, não arrumo trocado”, disse certa vez, quando vida ainda havia em seus pulmões. Ontem, depois de longo sumiço, só conseguiu esboçar em sílabas partidas pelo fôlego rarefeito: “A-do-e-ci”. Em seguida, sorriu, ejetando os dentes destacados pelas covas da magreza. Um sorriso marcado para se fechar.

Djavan, o guardador de carros da rua detrás, se foi. Há meses. Desde nossa última conversa, não o vi mais. Vasculhei seu paradeiro no restaurante, no posto de gasolina, na farmácia. Ninguém para confirmar o que antecipara seu vulto cambaleante. A rua ficou mais vazia, embora apinhada de carros. Dia desses notei a chegada de um novo profissional das guias. E pensei em Djavan. Tantas eram as nossas diferenças – de classe social, de cor, de ocupação, de horizonte – mas, nas frestas fadadas a durar migalhas de segundos, ele sorria e eu sorria de volta. Ou o contrário. Nesses instantes, pertencíamos à mesma irmandade.

Travessia

Moro a dois metros da família vizinha. Nossas janelas são comadres por decreto arquitetônico. Partilhamos ano após ano uma intimidade compulsória. E barulhenta. Conheço as mazelas do casal, o chiado da panela, o zumbido do aspirador de pó, as brincadeiras prediletas das duas meninas. Laura, primogênita; Camila, a caçula. Do lado de lá, devem espreitar, com certa curiosidade, minhas andanças noturnas. Os disparos dos dedos no teclado, o chuveiro inundando a madrugada, o telefonema da amiga, o filme, os suspiros.

Uma laje estreita liga nossos apartamentos como passarela alada. Gosto de pensar que um dia firmarei os pés sobre o concreto e adentrarei esta outra casa. Lá encontrarei meu futuro. O homem. As filhas. A família. A mesa posta. A sala habitada por um emaranhado de vozes. Às minhas costas, terei a moldura dos meus anos mais solitários. Gosto de pensar que a qualquer hora poderei fazer o caminho de volta. Não saberia viver sem meus ruídos e silêncios. Ainda que à minha volta tenha todo o amor do mundo.