Déficit habitacional

Morar em predinho-antiguinho-charmosinho tem seu preço. Não me refiro à ausência de elevador nem às esquadrias emperradas. Tampouco me queixo das infiltrações e das panes elétricas. Sequer ponho em questão os azulejos fora de moda, mas que voltaram a ser vistos com bons olhos por esta mesma moda, até algum decorador tornar a associá-los ao péssimo agouro da decadência.  Também não questiono a alta incidência de idosos entre os moradores. Pelo contrário. Vibro ao ser contemplada pela cortesia egressa de épocas tão remotas quanto polidas. O seu Freitas, do 12, usa chapéu, veja você, e se diz muito agradecido sempre que seguro a pesada porta art déco. Assim como ele, os demais são gentis, sem recearem parecer caretas, mesmo correndo o risco de sofrerem bullying por parte dos poucos fedelhos aqui abrigados. Não há discussão. Em matéria de bons modos, o pessoal da chamada “melhor” idade gera superávit. Mereciam, por isso, vale-condomínio. Contudo, à revelia de todos e, principalmente, deles mesmos, volta e meia meus vizinhos encurvados pelo tempo produzem déficit, computado na ata deste ainda jovem coração cada vez que mais um velho morador se vai. Pra sempre. Se minha matemática estiver em dia, quatro partiram desde minha chegada: seu Félix, que, ignorando nossa completa falta de intimidade, confidenciou-me sofrer de solidão após o rompimento com a namorada fisgada num baile; seu Fernando, lacônico esposo da falante sub-síndica, cuja morte fora igualmente econômica: dormia e ponto final; a dona do cabelo roxo – confesso, nunca soube seu nome nem a razão do óbito; e a mãe da Adriana, cuja graça me foge, embora recorde da sua penosa locomoção e do sorriso que o derrame tentou mas não conseguiu paralisar. Estranho andar pelos corredores e pensar que nunca mais receberei aqueles cordiais e já saudosos cumprimentos.

Filosofia expressa

Outro dia, enquanto coava café na cozinha de casa, uma amiga aproveitou para repassar certa filosofia de beira de fogão. Coisa mais deliciosa de se fazer numa tarde em que ambas “cabulavam” trabalho para falar de sonhos, projetos, ideias ouriçadas. Depois de discorrer sobre o beabá: “adicione duas colheres de sopa de pó e, de mansinho, vá despejando água fervente”, ela derramou a lição servida nesta crônica. Disse que, segundo um inspirado ser vivente, cujo nome virou fumaça, uma trivial xícara de café oculta o sofisticado ensinamento da simplicidade. Mas, para se chegar ao sumo da iguaria, é preciso arrancar, um a um, os badulaques que, tal qual feitiço, têm como única serventia distrair o paladar.

O problema começa aí. Continue lendo

Quem somos nós?

Há pouco, escrevi sobre uma personagem vítima do instante, por vezes, fatal, em que nada nem ninguém nos espreita. Encerrei a crônica aí. Na morte por afogamento no vácuo. Só depois, fui visitada não pelo fantasma da falecida, mas pela seguinte indagação: Quem somos nós nos momentos de vigilância zero? Ao largo das câmeras pregadas nos postes, das lentes compulsivas dos celulares, do olhar, sempre enviesado, do outro, que expressão colamos à face? Que postura emprestamos ao corpo? Que sons, que suspiros, que odores compartilhamos com o espaço ao redor? Será que nesses relances de lucidez chegaríamos a beliscar uma nesga da famigerada liberdade? Meu amigo, que costuma submeter o mais tolo dilema à análise de Freud, diria que não. Não há meio de o indivíduo se livrar do vigia 24 horas assentado sobre algum nó do córtex cerebral, ao lado do radinho de pilha, pilha esta que parece ter um pacto com os deuses da imortalidade. Pois bem. Já que somos incapazes de driblar a marcação do censor entranhado nos campos mais remotos do nosso ser, teríamos sucesso, pelo menos, em admitir para o silêncio o que nem mesmo terapeutas, padres e amigos confidentes ouviriam com exclusividade? E se o fizéssemos, qual seria o passo seguinte? Conviver com a revelação ou devolvê-la ao cofre de onde nunca deveria ter saído? Se a coragem for valente mesmo, seria o caso de direcionar a informação, ate então, secreta, para fundar novos começos ou, no mínimo, recauchutar assuntos não só pendentes como bambos, penso eu. Aproveite que ninguém o observa agora e deite num divã imaginário. O consultório está vazio. Freud foi fumar um charuto lá fora. E aí, que verdade o subterrâneo regurgita na sua fronte? Não precisa contá-la a ninguém. Mas, por favor, faça bom uso dessa autoescavação arqueológica.

Miolo de pão

Toda família que se preze rola seus bastões em direção à posteridade. Alguns exalam perfume francês, outros mal se deixam ver sob a catapora de brilhantes: propriedades, ações, estirpe, nome e sobrenome infinitamente colados ao RG de uma linhagem. Ocorre que, a despeito da reluzente fachada, não raro, as medalhas de ouro arrastadas vida afora mais parecem bolas de chumbo a afundar peitorais pouco ou nada satisfeitos em suportar a sina da continuidade. Só um comentário, ressentido, o leitor poderá acrescentar. Ainda mais depois de ler o parágrafo seguinte. Continue lendo