Socorro! Não posso ficar sem ela

O jornalismo, meu ofício e esteio, agoniza. Logo, a grana emagrece enquanto as contas começam a assustar a balança, contrariando minhas projeções juvenis de futuro. Não vejo saída. Vou ter que abraçar a faxina. Não me entendam mal. Não pretendo trocar a pena pela vassoura. Mas, aqui em casa, terei de assumir o serviço. Graças a Deus, tenho força nos braços. Longe de mim fazer chiadeira por causa disso. O dilema é outro. Há meses, tomei a decisão. Não vai dar. Neia, embora atlética, está pesada. E há meses venho relutando em dar a notícia à minha diarista. Raio de sol vindo do interior da Bahia, que, como contei certa vez, além de limpar, passar e lustrar, cuida, por querer, do meu miúdo jardim. Como dizer adeus, meus amigos, ao funcionário irretocável?

Às vezes, penso que Neia é cria da minha imaginação. Só pode ser. A cada quinzena, despenca da periferia de Guarulhos e, faça chuva, sol, tenha greve, passeata, revolução, às 7:30 da matina me acorda, infalivelmente, com um sorriso na fronte, cabelos engomados e um nada incômodo aroma floral. Há anos assisto a esse replay. Provavelmente, nessa larga fatia de tempo, ela brigou com o marido, varou a noite sacolejando o filho doente, teve dor na coluna ou coisa pior. Nunca transpareceu um fiozinho de agonia, revolta ou tristeza. Só cansaço. É humana. Uma única vez, passou mal durante a lida. Crise de enxaqueca. Levou bronca. Por que se atreveu a vir trabalhar nesse estado? “Não ia te deixar na mão”. Gosto de lembrar da resposta nos momentos em que alguns, por perturbação ou gênio ruim, se comprazem em mostrar sua face movediça. A beleza de quem não se sabe belo tem sustância. Guarnece de fibra o espírito dos que a alcançam.

Agora, me digam, como posso bater a porta na cara desta criatura, esta sim, diferenciada? Peço a todos que engrossem a reza para que o jornalismo saia da UTI, de modo que o cachê volte a encorpar e eu possa continuar recebendo essa iluminada visita quinzenal.

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Em dívida com a arte

Paulo César ZX, 27 anos, mora no Grajaú e circula pela Paulista. Prancheta numa das mãos, lápis, na outra. Aprendeu a desenhar nas aulas de educação artística da rede pública de ensino. Homem feito, seguiu a escola dos autodidatas. Desenha, faz grafite e pinta telas. Quer tornar esta expressão seu meio de sobrevivência.

Também nunca tinha ouvido falar dele. Até o próprio sentar-se ao meu lado, na saída da estação, e se apresentar: “Posso lhe mostrar minha arte?”. Antes que desperdiçasse grafite, tratei de avisá-lo que, naquele momento, infelizmente, não carregava dinheiro vivo, somente plastificado.  Como se tivesse ouvido o oposto, começou a riscar o papel enquanto eu me enredava em justificativas. Mudo, lançava os olhos negros por cima da armação dos óculos e me esquadrinhava. Constrangida menos pela exposição do que pelo trabalho não remunerado em curso, tentei disfarçar o incômodo enchendo o silêncio com a primeira ideia parada na mente. Duro admitir, mas saí com o clichê: “Difícil viver de arte no Brasil, né?”. Outra vez, ele me perfurou do alto das lentes e, como quem enxerga além, refutou o lugar comum que eu lhe oferecia. “Será?”, rebateu.

Um otimista. Bravo! Depois dessa lição de perspectiva, guardei com o maior zelo a frágil folha sulfite, dali por diante, fadada a eternizar o meu retrato. Não via a hora de chegar em casa e deixá-la em segurança. No dia seguinte, ganhou moldura.  Desde então, ocupa o lugar que lhe é devido.

O bubbaloo e a impermanência

Aroma de bubbaloo. Quem foi criança nos anos 80/90 sabe do que estou falando. O suprassumo dos prazeres artificiais infantis surpreende minhas narinas nas profundezas do metrô. E me sequestra. Posso sentir a calda geladinha inundar as papilas à primeira dentada. Pra quê adiar o melhor da festa? Que a euforia assuma seu lugar dentro da boca. Já.

Tomada por esse compromisso inadiável com o prazer, sugava loucamente a goma. Queria me apossar de cada gotícula de sua gostosura. Fazer bolas? Não era hora para distrações. Nada, nem a aparição da Xuxa em sua nave nem a constatação de ter sido premiada com a figurinha holográfica ou com o palito da sorte, seria capaz de interromper a insana atividade mandibular. Agora entendo por que minha amiga emprestou o nome do chiclete à sua cadelinha. Homenagem de fã, que nada. Atestado de adicção.

Pera aí, cadê o gostinho de tutti frutti? Continue lendo