Dona Francisca

Avancei duas casas no tabuleiro da minha rua e desembarquei no interior. Em frente ao portão, diminuto como a proprietária, bati palmas e esperei por Dona Francisca. Num átimo, esquadrinhei a residência da costureira. Um magrelo corredor ladrilhado com cacos de cerâmica cor de terra conduz à fachada, larga o suficiente para acomodar janela e porta. Dois casebres de madeira flutuam rentes ao beiral do telhado. Iscas de beija-flores. Tristes de tão vazias. Onde estariam seus inquilinos na cidade de concreto? Com que frequência visitavam seus abrigos?

Já ia imaginando bailados aéreos ou mesmo a moradora, cotovelo no batente da janela, ansiando pelo espetáculo sempre adiado, quando dona Francisca apareceu.  Pergunto se está ocupada, se chego em má hora. Sorrindo e alisando o avental, ela explica que lavava a louça, mas que pratos e copos sujos são apenas pratos e copos sujos. Desimportantes. E coisas desimportantes podem esperar. Pra quê pressa? Aliás, confidenciou-me, não entendia por que as pessoas viviam ralhando com o relógio, deixando rastro de vento, bufando e enxugando suor, como se urgente não fosse viver e sim prestar contas a sabe-se lá quem. Em casa de dona Francisca, o depois sabe esperar sua vez.

Mas eu não. Continue lendo