Dona Francisca

Avancei duas casas no tabuleiro da minha rua e desembarquei no interior. Em frente ao portão, diminuto como a proprietária, bati palmas e esperei por Dona Francisca. Num átimo, esquadrinhei a residência da costureira. Um magrelo corredor ladrilhado com cacos de cerâmica cor de terra conduz à fachada, larga o suficiente para acomodar janela e porta. Dois casebres de madeira flutuam rentes ao beiral do telhado. Iscas de beija-flores. Tristes de tão vazias. Onde estariam seus inquilinos na cidade de concreto? Com que frequência visitavam seus abrigos?

Já ia imaginando bailados aéreos ou mesmo a moradora, cotovelo no batente da janela, ansiando pelo espetáculo sempre adiado, quando dona Francisca apareceu.  Pergunto se está ocupada, se chego em má hora. Sorrindo e alisando o avental, ela explica que lavava a louça, mas que pratos e copos sujos são apenas pratos e copos sujos. Desimportantes. E coisas desimportantes podem esperar. Pra quê pressa? Aliás, confidenciou-me, não entendia por que as pessoas viviam ralhando com o relógio, deixando rastro de vento, bufando e enxugando suor, como se urgente não fosse viver e sim prestar contas a sabe-se lá quem. Em casa de dona Francisca, o depois sabe esperar sua vez.

Mas eu não.

Preciso largar a sacola, explicar em 140 caracteres o ajuste necessário e sumir. Duas casas atrás, prazos me espreitam, já batendo o indicador no vidro do relógio de pulso e as tamancas no chão. Tento furar a muralha verbal trançada em segundos, mas desisto. E desabo no sofá com a sacolinha no colo. Em vez de cliente, me descubro plateia. Conforme vai desenrolando os  casos da semana – o moço da bermuda, cujos vincos lhe deram um trabalhão; a freguesa do vestido de renda que vem lá da Zona Sul visitar a mãe toda quarta-feira. Virou granfina, mas não desgarrou das raízes; a senhora do tailleur, fiel tanto à compostura quanto à leitura da missa dominical. Deus a conserve na fé – , a costureira tece tempo, entrelaça espantos e deboches, observações e alfinetadas de sabedoria. Se o conteúdo é comezinho, a melodia e o compasso o engrandecem. Adepta da moda mineira, ela entoa o primeiro acorde do acontecido sem pretensão de ir longe, mas, quando se vê, já formou uma colcha, tantos os retalhos alinhavados. De ponto em ponto, fecha o nó da prosa e passa para o causo seguinte sem deixar arremate à mostra.

Presa ao novelo da conversa fiada no capricho, sublimo a encomenda. Enredada estou e, apesar da pressa, àquela altura da tarde, calminha, calminha, quero continuar emaranhada nos fios desse tear. Café, biscoitinho caseiro, bolo de laranja, queijo fresco com doce de leite. Imagino todos eles sobre a mesa, confabulando para que eu desfrute de um tempo estranho ao meu fuso, mas que bem se apruma dentro de mim. Tão bem que, se dona Francisca não voltar para sua louça, corro o risco de me autoproclamar sua comadre e em sua porta bater todas as tardes.

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Um pensamento sobre “Dona Francisca

  1. Tens o Dom da Palavra !!! Como é gostoso e, … corre solto, … leve, … o desenrolar do Seu Pensamento … !!! PARABÉNS !!! Estou Admirada e Encantada Contigo, … Raphaela de Campos Mello !!! LUZ SEMPRE PARA VOCÊ !!! Namastê !!

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