O barato da faxina

Venho falar de faxina, logo eu que, por falta de aptidão e de nervos, jamais poderia apresentar aquele programa da TV formatado para invadir residências de gente “comum”, devassar armários e gavetas e, em troca, executar melhorias – sim, o planeta comporta pessoas que preferem terceirizar a ordenação de calcinhas e cuecas a ter de, elas mesmas, manusear sua intimidade. Estranho mundo.

Como careço de verba e de estômago para contratar um personal organizer, aproveitei as férias domiciliares – involuntárias – para dar cabo da bagunça. Na entressafra do calendário gregoriano, encontro o incentivo que me falta no restante do ano: a promessa de renovação generalizada. À procura desse elixir, segundo a crença coletiva, capaz de higienizar os diversos escaninhos da vida, me atiro sobre meus pertences em desalinho com tamanha voracidade que chego a desconfiar: “Quem é essa que agora me possui?”.

O alvo da temporada são armários, gavetas e, principalmente, papéis, há muito, passados. Contrariando os especialistas em colocar ordem na vida alheia, inicio pela demanda mais simples: a zona em vias de se cristalizar. Chego pouco antes do desengano. Há salvação sem grande derramamento de suor. Os casos complexos – uma gaveta emperrada e outra dominada por uma teia infinita de fios e cabos – ficam para depois. Manobra de risco, eu sei. A sandice de deixar tarefas difíceis para o final está diretamente ligada à alta probabilidade de abandono por falta de fibra e de saco. Opto por percorrer esta navalha. E não é que ela me reserva o gostinho inesperado das reviravoltas?

Percebo que o mutirão solitário é composto de fases. Não queira, meu amigo, degluti-lo numa só vassourada. De saída, é preciso lidar com o cenário inevitável do acúmulo: “Meu Deus, há tanto por ser feito”. Dali a pouco, vem o baque: “Faltam-me forças. Não vou aguentar”. Aqui, atenção, vale contornar o desânimo apelando para o infalível cafezinho com bolo. A pausa é necessária. Não se culpe. É o que faço para, na retomada, descobrir um tornado dentro de mim. O processo se assemelha à corrida. Após as preliminares, o corpo embala e passa a saborear espirais de endorfina largamente apreciadas, sem contraindicação, por eletrizar músculos, cartilagens e tendões. Sentindo-me uma maratonista encaixotada em 50 m², desencavo um carregamento de gás bojudo o bastante para animar e, se for preciso, reanimar a faxina do século.

Se tivesse desistido lá pela terceira ou quarta visita da procrastinação, que, com voz de anjo e olhos de raposa, me tentava: “Retome o serviço amanhã. Vá descansar. Você merece”, não teria descoberto que desentupir prateleiras, livrar-se do encardido e, por fim, aspirar o reconfortante aroma do pinho dá barato, minha gente. Arrisco dizer que não só o psicológico rejuvenesce ante a perspectiva de que os entulhos alojados na mente escoem por ralos ocultos, como o organismo recicla a energia circulante, agora, tão fresca quanto o sabão de coco e a aloe vera. Tanto é que, já tendo a lua por testemunha, me vi, escova de dente em punho, caçando poeira em frestas invisíveis a olho nú. Não queria que a limpeza acabasse. Ainda bem que, de fato, ela nunca acaba.

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