A noite em que o pagodão venceu

Um bocado de gente adora tomar banho de sol. Poucos, menos convencionais, preferem se deitar sob a lua. Eu gosto mesmo é de me lambuzar de silêncio, este néctar das madrugadas. Tenho a sorte de viver num bairro que exala calmaria noturna. Entre um zumbido de motor e uma freada de ônibus ao longe, podem gotejar bons minutos. Aproveito a apneia urbana para massagear os tímpanos. Um detox auditivo mesmo. Fecho os olhos e torço para que a próxima motoca demore a roncar na avenida. Costumo ser atendida.

Desfio esse tanto de prosa para dar a medida do abuso perpetrado pelo pagodão, munido de amplificador e microfone, que, subvertendo os costumes locais, maculou a pureza sonora da minha madrugada. Cidadã, disquei 153 (Guarda Civil Metropolitana). Dois toques e, do outro lado, um “bom dia” embriagado de sono – ou de indiferença.  Fico sabendo que a polícia militar já havia sido recrutada por uma saraivada de telefonemas queixosos e que estava a caminho. Ingênua, acreditei.

E esperei.

Lá pelas tantas, percebi que havia migrado da ala dos incomodados para a plateia do evento. A vizinhança inteira não teve outra escolha. À exceção dos que dormem feito anjos de pedra, seguimos, com ouvidos despertos, até a saideira, um mix de três ou quatro músicas, como preza a tradição. Batuque a galope e nada da sirene. Esperei por ela como os aposentados nas filas do INSS, os doentes nos corredores dos hospitais, os favelados nas listas dos conjuntos habitacionais.

Quase manhã, a festa acabou, o silêncio, enfim, retomou sua soberania e eu sobrei de olhos abertos, sem sono e sem voz. Difícil dormir com a impotência entalada na garganta.

Anúncios

Sala de espera

Vovó desistiu. Não quer banho, comida, novela. Passeio, então, que chatice! Diz que todos têm a sua hora e que a dela há de chegar. Aguarda o sinal da saída debaixo dos lençóis. E toda noite se perfuma para o caso de despertar do lado de lá.

Também já escolheu a cor das flores: lilás, como a parede do quarto. Sua preferida. Digo que ela deveria ser grata. Foi poupada de agulhas, paralisia, espasmos, sufocamento. É uma idosa tardia, porém saudável. Um trevo de folhas quase centenárias. Ela me corrige. “Não, filhinha, tenho a doença do esquecimento”. Inclinada desde jovem a certo drama, enquanto decreta sua sentença, desliza o indicador de uma extremidade à outra da testa, como se puxasse um zíper invisível. “Os nomes me escapam. Além do que, estou muito cansada. Mesmo sem fazer nada. Nada. Não faço mais nada. Apetite não tenho, muito menos paciência para a televisão”, suspira pesado e emenda: ” Não queira ficar velha, minha filha”.

Não cabe a mim decidir. Como a senhora diz, todos têm a sua hora. Compramos ingresso para a mesma caravana, esqueceu? “Não se preocupe, filhinha, já conversei com Jesus. Você ainda será muito feliz”. Gosto de ouvir isso. Desejo de vó tem poder. E, considerando que a reza virou atividade única, creio que suas solicitações avançam pela fila preferencial. A insistência faz milagres. Como abrir mão dessa regalia? Uma rezadeira particular a rogar por mim dia e noite.

Vó, sei que o tédio é de matar. Por isso, a despeito do meu egoísmo, me esforçarei para sorrir ao senti-la cruzar, perfumada, o portão de embarque.