Brincadeira de boneca

Vovó, ex-tricoteira de agulhas hiperativas, a cada dia se emaranha um bocado mais nos fios da realidade e da invenção. Com eles faz ziguezague, embora enxergue carreiras retilíneas, conforme seu padrão de qualidade – quantas vezes, enquanto me ensinava o tricô, me obrigou a desmanchar fileiras inteiras deformadas pelo excesso de buracos. Sob suas asas, aprendi a demolir o erro e a tramar outra vez o que precisava sair bem feito. Melhor escola, impossível.

Agora, assisto à sua brincadeira em outro sofá, em outras companhias. Velha assaltada pelos quereres e trejeitos de criança, ela embala a boneca da colega na casa de repouso. Ora pisca para nós, cuidando para manter intacta a fantasia da sua mais recente amiga, uma senhora de 90 anos em avançado estágio de Alzheimer, ora exalta a formosura do bebê de plástico. Dá um nó para em seguida desfazê-lo, se amarra à normalidade, mas logo se solta. E começa a fiar delírios.

A sala de visitas é um retângulo de lajotas cor de creme contornado por poltronas de courino preto. Alguns assentos estão carcomidos. Dos pequenos orifícios aflora a espuma gasta. Não mais subterrânea. Só não vê quem vira o rosto. Ali, grande parte dos internos cochila, alheios às suas próprias carcaças, que dirá ao odor de urina que as fraldas, impotentes, são incapazes de reter. Vovó aproveita a tarde para brincar. A boneca reempossou o colo antes rechonchudo e ocupado. Procuro alguma dignidade no gesto. E a encontro. Ao menos, para aliviar o incômodo de flagrar sua imersão num tempo muito anterior à minha chegada à teia de seus descendentes. Como sempre fizera com seus três rebentos e com as oito crias de suas crias e, mais tarde, vigiada por olhares reticentes, também com os dez filhos dos filhos de seus filhos, ela cuida. Melhor do que dormir com a cabeça tombada ou mirar com olhos babados a tela de 60 polegadas, trambolho que nada diz, nada ecoa.

 

O rótulo que seremos

Uma amiga está grávida. Carrega Rafael, chutador de primeira. Na verdade, ela carrega Raphael, com o velho “ph”. Ao saber desse detalhe literalmente familiar, conto pela enésima vez que meu nome, não só o “ph”, é homenagem à bisavó, mulher do século 19. Época em que não havia uma farmácia em cada esquina, somente a pharmácia do bairro chefiada pelo boticário amigo da família. Na minha imaginação, as prateleiras amadeiradas exibiam recipientes de vidro com rótulos, hoje, intraduzíveis. Piso de ladrilhos portugueses, claro. Consigo ouvir o som das botas tac-tac-tac e sentir o cheiro de mofo dos chapéus das damas, amontoado de flores secas e rendas esmaecidas, como as donas.

Sufocado pela poeira do tempo, o “ph” sobrevive, como também a memória dos que partiram. Ao contar pela enésima vez a origem do meu nome, disparei um comentário sobre minha bisavó, temperado com aquela risadinha de quem é superior, jovem, vivo. Em seguida, atinei para o fato de que um único e, por certo, injusto adjetivo se colou à sua pessoa: rabugenta de primeira. Imagine atravessar uma existência engolindo as ironias da vida, suavizando as durezas do cotidiano, o tanque, o forno a lenha, o galinheiro, a viuvez precoce e os quatro filhos, para, no final, ter sua biografia reduzida a uma etiqueta. No caso, em nada lisonjeira.

Há um livro ainda inédito pra mim, cujo título me assombra: “A ausência que seremos”, do colombiano Héctor Abad. Dizem que ele se inspirou no primeiro verso do soneto “Epitáfio”, atribuído ao argentino Jorge Luis Borges, que diz: “Ya somos el olvido que seremos”. Agora me preocupo. No futuro – distante, espero -, minha ausência será lacrada com qual rótulo? Prometo, e vocês são testemunhas, que farei diferente. Rabugenta foi minha bisavó. Eu, também Raphaela com “ph”, serei outra.