A seca desceu

Como digo no perfil deste blog, sou uma paulistana importada do Recife. Enredada na sina dos adultos, deixei o mar e me meti debaixo da garoa aos dois anos de idade. Escapei do sotaque lá de cima como também do sentimento de pertença a uma cultura ensolarada e resiliente. Por muito tempo, Pernambuco se espremeu dentro de um cartão-postal. Férias no azul-esverdeado. Esse outro que se sobrepunha ao cinza dos meus dias úteis.

Nesse nordeste-passagem o drama da seca se resumia a uma tela pregada na parede da casa da tia querida que nos dava abrigo a cada punhado de anos. Quanta euforia esparramada pelos cômodos ladrilhados e pelo gramado onde eu, meus irmãos e os primos desfalecíamos no colo da tarde retirante. Moles de brincadeiras adocicadas pela maresia, sabíamos que o asseio nos permitiria tomar lugar à mesa. Comprida e farta de sabores estrangeiros ao meu paladar educado em outra freguesia.

Indo e vindo de alegrias condimentadas como só lá era possível, um chamado me fazia estancar toda vez que cruzava aquele pedaço da sala. Torcia o pescoço e eles permaneciam ali. Bois esquálidos com grandes olhos tristes vagando sobre a terra craquelada. Seca de esperança.

O incômodo, entretanto, se desvanecia pelas mãos maternais do alívio. As agruras do sertão esfolavam povoados distantes da minha cidade, pensava – sim, postiço passou a ser o berço convertido em destino turístico. Naquela época, São Paulo só conhecia a secura do asfalto e dos modos da sua gente talhada na pressa. Seguia protegida pelo acolchoado da prosperidade. No entanto, contra todas as expectativas, a estiagem desceu. O nordeste se instalou na casa paulistana e dessa vez seus filhos-gado desgarrados estão dispensados da culpa. Os baldes – símbolos da penúria lá de cima – agora recaem vazios sobre nossas cabeças sulistas. Quem diria, a capital de grifes caudalosas e cantareiras de terra batida teme o dia em que suas torneiras amanhecerão mudas. Os bois desamparados também somos nós, aqui debaixo.