O que fazer com nossos velhos?

Algumas ideias.

Dizer a sua mãe estancada diante das flores expostas no supermercado: “Minha querida, você já colocou três vasos no carrinho. Além do que, em casa não há mais espaço para flores. Vamos, vamos”. O braço da filha, firme como bengala, vai conduzindo os passos miúdos da senhora para longe da beleza que adoçara sua tarde de outono. Quanta lentidão. Quanta paciência. Quanto amor.

Adiante, no corredor das frutas, outra mãe. Velha. Espera a filha ensacar as maçãs. A pele curtida repousa sobre os gélidos braços da cadeira de rodas. Ela olha para algum lugar. Duvido que enxergue alguma coisa por entre as brumas coladas à face. Mas ela está ali na tarde morna. Sentada em sua cadeira de rodas. Se seus olhos desistiram de ver, sua filha não desistiu de lhe mostrar o mundo.

Outro dia, outra velha. Esta se ampara no amor da neta. Amor que, por sua vez, se escora na gratidão. “Avó melhor que essa não há”. A matriarca que foi alimento, colo, carinho por nada – e por tudo -, hoje lança seu corpo-impotência sobre o corpo-compaixão da neta. Assim vão se movendo – e aguentando. Da cama para a cadeira de rodas. Da cadeira para o sofá. Do sofá para a cadeira estacionada em frente à mesa da cozinha. E de volta à cama. Quanto peso. Quanta força. Quanto amor.

Ai de nós, promessas de velhice. Teremos em nossa retaguarda zelo igual?

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Salve, Djavan!

Djavan, o guardador de carros da rua detrás, bem poderia ser meu vizinho. Todo dia me vê passar e, não contente em acenar, grita do outro lado da calçada: “Oi, tia”. Vez sim, vez não, pergunta pelos meus sobrinhos. Se esquece os nomes dos pequenos, pede que eu socorra sua memória. Outro dia, me interpelou preocupado: “Você emagreceu demais. Está tudo bem?”. Tempos atrás, sumiu. Tantas possíveis tragédias me rondaram naquele período…Até que reapareceu, mancando. Contou que foi atropelado por um ônibus e, sem grana para a fisioterapia, recuperou parte da mobilidade andando de bicicleta pelo bairro. Djavan nunca me pediu esmola ou prato de comida. Portanto, nada me deve. É tão somente uma alma gentil, como pouquíssimos condôminos do meu edifício.

Djavan, o guardador de carros da rua detrás, ainda vive. Mas já é possível sentir as baforadas da morte em seu entorno. Franzino sempre foi. Questão de genes. Agora, se arrasta pelo bairro escorado por ossinhos de criança a espetar a pele. Nas mãos, dois canos de PVC a emprestar-lhe alguma misericórdia. Numa existência de improviso em improviso, até na hora da morte é preciso remendar. “Se eu ficar em casa sem trabalhar, não arrumo trocado”, disse certa vez, quando vida ainda havia em seus pulmões. Ontem, depois de longo sumiço, só conseguiu esboçar em sílabas partidas pelo fôlego rarefeito: “A-do-e-ci”. Em seguida, sorriu, ejetando os dentes destacados pelas covas da magreza. Um sorriso marcado para se fechar.

Djavan, o guardador de carros da rua detrás, se foi. Há meses. Desde nossa última conversa, não o vi mais. Vasculhei seu paradeiro no restaurante, no posto de gasolina, na farmácia. Ninguém para confirmar o que antecipara seu vulto cambaleante. A rua ficou mais vazia, embora apinhada de carros. Dia desses notei a chegada de um novo profissional das guias. E pensei em Djavan. Tantas eram as nossas diferenças – de classe social, de cor, de ocupação, de horizonte – mas, nas frestas fadadas a durar migalhas de segundos, ele sorria e eu sorria de volta. Ou o contrário. Nesses instantes, pertencíamos à mesma irmandade.

Travessia

Moro a dois metros da família vizinha. Nossas janelas são comadres por decreto arquitetônico. Partilhamos ano após ano uma intimidade compulsória. E barulhenta. Conheço as mazelas do casal, o chiado da panela, o zumbido do aspirador de pó, as brincadeiras prediletas das duas meninas. Laura, primogênita; Camila, a caçula. Do lado de lá, devem espreitar, com certa curiosidade, minhas andanças noturnas. Os disparos dos dedos no teclado, o chuveiro inundando a madrugada, o telefonema da amiga, o filme, os suspiros.

Uma laje estreita liga nossos apartamentos como passarela alada. Gosto de pensar que um dia firmarei os pés sobre o concreto e adentrarei esta outra casa. Lá encontrarei meu futuro. O homem. As filhas. A família. A mesa posta. A sala habitada por um emaranhado de vozes. Às minhas costas, terei a moldura dos meus anos mais solitários. Gosto de pensar que a qualquer hora poderei fazer o caminho de volta. Não saberia viver sem meus ruídos e silêncios. Ainda que à minha volta tenha todo o amor do mundo.