Conviver é preciso

A pracinha é a porção arbórea mais próxima de casa. Recorro a ela nas tardes amenas e, por isso mesmo, avessas à ditadura do rendimento físico. Uma fita de asfalto a bordeja e nos serve de pista. A mim, às crianças montadas em suas bicicletas e em seus patinetes, aos atletas amadores, aos cães vadios e aos engomados, aos pedestres interessados em se emburacar no metrô, aos idosos em reabilitação, aos contemplativos de queixo erguido para melhor avistar a copa das árvores e também aos casais com seus bebês engolidos por carrinhos corpulentos.

Certa vez, peguei pela frente – e pelas costas – uma conjuração desse tipo. Pai, mãe e filhinho em repouso sobre rodas. A cada volta completa, propositalmente na delonga dos retardatários, tinha a chance de fisgar uma lasca da conversa. Fui petiscando, pestiscando, pestiscando, até encher o prato. O conflito central da narrativa poderia ser assim resumido: chefe de família investe esforço quase nulo para prover o sustento do lar.

A cada giro um novo argumento se encarregava de elevar o volume da arenga conjugal. De maneira que não precisei mais espichar os ouvidos. O conteúdo da discussão se enroscava em meus passos e me acompanhava uns bons metros; perfurava a célula privada do matrimônio para ganhar a acústica do coletivo.

Logo o bebê acordou e pôs-se a berrar. Com razão. Os adultos inflamáveis arruinaram seu passeio vespertino como também o meu, o das crianças montadas em suas bicicletas e em seus patinetes, o dos atletas amadores, o dos cães vadios e o dos engomados, o dos pedestres interessados em se emburacar no metrô, o dos idosos em reabilitação e o dos contemplativos de queixo erguido para melhor avistar a copa das árvores. Toda a comunidade atraída pelos encantos da tarde amena, espremendo a convivência numa fita de asfalto. Um dia a gente aprende.

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