Feliz Ano Novo

No último dia do ano, o céu despeja suas águas com fúria. Seria um recado? Um prenúncio? Um banho, prefiro acreditar. Limpeza necessária, por isso, a veemência do temporal. Por trás de cada trovão, ecoa o mandamento celestial: “Tenhas a coragem de limpar as sujeiras mais arraigadas, quase pedras de tão calcificadas”. O velho “deixar ir”. Fácil não é. Algo em nós quer virar pedra. Permanecer. Feito as estátuas da Antiga Roma. Os séculos se sucedem sem descanso e elas continuam lá, crispadas de pompa e orgulho. Queremos mesmo um novo ano? Aceitamos sacrificar nossas estátuas em nome do que não conhecemos, apenas supomos? Eis aí um ato de fé, mesmo para aqueles que em nada creem.

A chuvarada se foi. O “bombardeio” sobre o telhado cessou com a mesma contundência da sua chegada. Deixou um vácuo. Silêncio abafado, logo tomado  pela feliz cantoria dos passarinhos. Migro da Roma Antiga, tão tumultuada, para os campos do Éden ou de qualquer outro paraíso terrestre. Eles existem. Em algum lugar, eles existem. É por isso que vamos,  como lembra o poema do português Sebastião da Gama: “Pelo sonho é que vamos, comovidos e mudos. Chegamos? Não chegamos? Haja frutos ou não frutos. Pelo sonho é que vamos”.

Mas, antes, é preciso estar limpo.

Que o próximo ano irradie a luz de que necessitamos!

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A menina do baú

Dia desses assisti a um debate sobre o fundamental hábito da leitura. Como firmar o elo entre escritor e leitor? A quem caberia tal responsabilidade? À escola? Aos pais? Ao governo? O papo enveredou por essas vielas ainda tortuosas e mal iluminadas. Tristeza nossa.

Alegria minha. Imediatamente uma faísca de memória me trouxe a menina do baú. E com ela a consciência da fartura, somada à sorte de ser a terceira da fila. O posto de caçula, nem sempre confortável, me permitiu, em compensação, o regalo dos regalos: desfrutar um baú abarrotado de livros.

Minha arca-biblioteca-encantada foi crescendo à medida que meus irmãos liam por imposição escolar aquelas simples brochuras – na visão deles, não na minha -, posteriormente arremessadas dentro da caixa de madeira embutida, que fazia as vezes de cabeceira da minha cama. Crimes nebulosos, amores inocentes, achados do nosso folclore, amizades de ruas (naquela época não se falava em condomínios), medos e descobertas atrelados à inevitável marcha do crescer. Tudo muito bem prensado pelo meu baú.

Quantas vezes manuseei aqueles volumes. As palmas das minhas mãos para sempre recordarão o prazeroso expediente repassado por anos a fio. O compromisso consistia em apanhar os exemplares, perfilá-los, agrupá-los, bagunçá-los, pra depois inventar uma nova ordem, num eterno recomeço. E o cheiro. Hum. Tão familiar, tão meu. Ainda bem que a rinite estancou no irmão do meio. Saí ilesa. Caçula tem uma sorte danada!

Sorte maior foi ter carregado meu baú até aqui. Claro, a cama de madeira com o caixote acoplado partiu na caçamba de uma kombi. Eu adolesci; ela procurou outra criança. Os livros, por sua vez, passaram anos enfurnados em caixas lá no alto do maleiro. Até que, num rompante de desapego, os libertei. Desde então, a biblioteca infanto-juvenil do bairro espichou um bocadinho. Mas nada disso altera o fato de que até hoje meu tesouro de papel vela minhas noites. E acende meus dias.

A menina do baú era rica. Talvez não soubesse disso. A mulher que ela veio a ser desconhece fortuna maior.