Gota a gota

Na hora da pressa mais aguda e atônita, quando os sinos da Ave Maria badalam para ouvidos surdos, e as pernas se colocam em fuga, e os corpos se amontoam debaixo da terra, e até o mais apaziguado ser humano é invadido por uma agonia anárquica, e todos querem passar, e todos querem chegar, e todos não passam de uma massa ensandecida, vejo o homem amputado.

Imune à selvageria da baldeação, ele vai no seu passo único. Gota a gota. As muletas por companheiras. Alheio à manada, saltita com o pescoço aprumado – nem derrota nem soberba. Concentrado, mas sem rugas de esforço, feito um atleta experiente, ele avança. E vê. Na sua meditação compulsória, o homem amputado vê o que ninguém vê.

Como apenas o vejo, não as coisas que ele vê, me ponho a imaginar as revelações que se mostrariam, como aparições místicas, somente a ele. Ele, o eleito.

Vejamos.

Dorsos curvados, quase vencidos, mas ainda fiéis à luta; o sono imaculado do bebê sob a fralda finíssima que a mãe ajeita e de novo ajeita enquanto equilibra a sacola apoiada na dobra do cotovelo; o rosto espinhento da adolescente que faz do cabelo cortina para sua vergonha; a truculência à espreita no craquelado-vermelho-sangue dos olhos do segurança maior do que todos; os namorados se esgueirando e se contorcendo para manter as mãos enlaçadas em meio à enxurrada de braços e ombros e troncos e quadris e nádegas; a pele amarela do homem que definha debaixo da roupa folgada e leva consigo uma sacola plástica da farmácia popular; e tantos outros homens e mulheres tentando chegar, todos os dias, em algum lugar.

Enquanto não chegam, perdem seus contornos e se fundem num imenso corpo-aceleração-que-tudo-atropela. Já o homem amputado se move, como a vida, gota a gota.

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