De volta ao fogo

A noite já havia se assentado quando a mulher fora atraída pelo crepitar da lareira.

Disse qualquer coisa a quem estava por perto e, como que envolta num feitiço, deslizou para junto do fogo.

Na saleta, uma velha bordava. Os estalos da lenha embalavam seu espírito que, por sua vez, modulava o subir e descer das mãos. Mantinha os olhos fixos no trabalho. Os óculos bem encaixados na ponta do nariz. Sequer espiou a recém-chegada.

A mulher, hipnotizada pelas chamas, compreendeu.

Adentrara um templo.

Um lugar de repouso.

Rapidamente, intuiu que, mesmo a fala mais cordial, pelo bem da convivência, seria uma desonra à atmosfera ancestral manifesta por aquela alquimia, tão antiga quanto necessária.

Calou.

E, nesse mesmo instante, como se dissesse a senha correta, sentiu o calor amolecer seu corpo e abrandar seu coração. A cabeça desocupada nada podia diante do corpo inebriado por aquele reencontro. Assim, rarefeita, mas encarnada, viu-se diante de outra lareira, sentada numa cadeira de balanço, de saia longa e xale. Cerzia um pedaço de pano. Protegida do frio e da noite.

Olhou para a velha, quieta como uma pedra. E sentiu profundo respeito por seu silêncio.

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