Sinal de vida

Hoje o dia me pediu uma palavra, um aceno. Como o pai aflito diante da mudez do filho. Se ele soubesse quanto barulho se esconde boca adentro, talvez não me procurasse. Mas o fato é que o dia entrou pela janela e me pediu um sinal de vida. Respondo. Ou melhor, conto. Prefiro contar por onde a vida tem andado.

Outro dia, ela se enfiou num vaso. Intrusa. Descarada. Apareceu verdinha como se dona fosse da terra há tempos ocupada pela suculenta que multiplica seus gomos quase como por milagre. Como pode viver e se reproduzir com o mínimo de água? E nós aqui tão necessitados de tanto. Agora, as duas partilham o mesmo diâmetro. Estão bem. Crescem lado a lado. Como irmãs.

Dia desses, a vida se fez gato. Uma amiga não suportou os gemidos que fizeram doer a madrugada e adotou o bichano como filho. Acostumada a ser susto, a criatura ganhou nome e sobrenome. Comida, teto e chamego. Descobriu que pode se erguer e andar sobre o carpete quentinho. Descobriu que pode miar. De alívio. E de alegria. A dona, por sua vez, descobriu mais uma sobre a vida. E sobre si mesma.

Por essas semanas, também preciso contar, a vida se instalou na minha testa. No começo, era uma leve dobradura, uma linha indecisa num papel ainda virgem. Agora é um traço definitivo. Um carimbo da existência que ora me espanta, ora me agrada. É a vida se imprimindo na face exposta ao mundo. Talvez um esboço ínfimo da paisagem que se desenha do lado de dentro. Assim espero. O fato é que o tempo escorre. E eu corro, deito, levanto, me encolho, me estico. No momento, não sei bem o que fazer com ele. Talvez, só precise deixar que ele se faça tempo em mim. Para isso existe a palavra – salvadora. No tempo da palavra, eu e você, que me lê, estamos como que foragidos do tempo. No tempo da palavra, a vida é outra. Essa outra vida que nutre o bebê que sempre seremos.

Por falar em bebês, a vida tem andado em uma porção de barrigas. Grávidas. Quantas grávidas me rondam. Quanta alegria pode caber numa semente. Manuela, Beatriz, Rita, Joaquim. Aqui fora há muita vida, o tempo todo, em todo canto. É tanta vida que, às vezes, de espanto, calamos. É tanta vida, que, às vezes, por alento, contamos. Para responder aos dias, vivemos. Mas isso é conversa de gente grande. Por ora, desejo a vocês uma bela chegada.

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Brinque, criança, brinque

Por que você está sem graça hoje?, perguntou o menino com as sobrancelhas espremidas. Ele poderia ter ido mais fundo com sua espada. Mas, equilibrando-se entre a possibilidade de estar bravo ou decepcionado, ou as duas coisas, algo nele, amor talvez, quis poupar a mulher da verdade. Disse somente metade do que gostaria de ter dito. Mas ela sabia. E naquele instante pôde enxergar na queixa do menino o rastro azedo de seus dias. Como explicar para a criança que os adultos por vezes se cegam? A graça se desprende dos olhos. Só há breu. Por um tempo. Um tempo sem aviso. Mas não se canse de mim, ela quis dizer. Vou voltar. Um dia vou voltar. E daí poderemos rir o mesmo riso. Estou até vendo. Vamos nos lambuzar dessa alegria boba, que chega pela barriga e faz o corpo inteiro coçar de tão bom que é ser feliz. Façamos melhor. Vá brincando aí, rente às minhas pernas. Escolha um pedaço de tapete. Não vou a lugar algum. Prometo. Vá enchendo os instantes, rodopie, vire uma cambalhota, embarque num foguete e visite a lua, duele com dragões e, quando o cansaço chegar, cochile numa nuvem de algodão. Estarei aqui. Faça isso. Vá saltitando. De brincar em brincar, o dia será outro e mais outro. E quando estiver longe, no alto da árvore, agarrado ao cipó, ou do outro lado da colina, onde é bom de soltar pipa, nem perceberá que eu me sentei ao seu lado no tapete. E que agora meu rosto todo sorri.

Uma hora com Larissa

Ela se sentou no meio. Numa ponta sua mãe estendia os pés para a manicure; na outra, eu fazia o mesmo com as mãos. Até então não havia reparado em seus olhos verdes que cintilavam a cada coisa narrada. Só ouvia sua tagarelice. Mãe, olha quanta coisa eu escrevi nesse caderno hoje.  Tenho lição de português e geografia. E prova marcada de matemática.

Muito entusiasmada a garota ia tirando cadernos e livros da mochila. Folheava as páginas com gosto. Exibia para a mãe a caligrafia e as contas e as histórias. A vida escolar era boa. Sua vida era boa. Larissa irradiava a alegria que encontrava em tudo. Não me contive. Virei o rosto para finalmente conhecê-la. Queria saber daquela menina. Como também me mostrar para ela. Queria que nossas vidas se encontrassem.

Quando revelei ter estudado na mesma escola, vi pela primeira vez seus olhos verdes cintilarem. Duas esmeraldas me encaravam fascinadas. Imediatamente viramos colegas. Primeiro Larissa me cobriu de perguntas. Saciada sua curiosidade de menina, me pegou pela mão e me levou para conhecer sua vida. Se estivéssemos caminhando, certamente ela saltitaria. Sem dúvida, ela saltitaria.

Como uma anfitriã plena nesse papel, Larissa me mostrou seu estojo e a coleção de canetas coloridas. Depois passou rasteira pela agenda, pois queria mesmo me apresentar o bolo de figurinhas metido numa bolsinha em forma de laço. Minhas unhas já estavam na etapa do esmalte, então ela se apressou para ligar o celular e introduzir seus entes queridos: os pais, a avó, os tios, os primos, o cachorro. Também pude vê-la no cinema, com um saco de pipoca no colo. Numa pose em plena brincadeira de boneca com as amiguinhas. No rasinho do mar, feliz como só uma criança pode ser no rasinho do mar. Ainda flagrei a pizza, o parque, o boliche, a festinha.

Larissa e eu conhecemos o que chamam de intimidade. Mas tive que deixá-la. Nosso tempo juntas estava predestinado a caber em uma hora. Assim pensei naquele instante de tchau, foi um prazer conhecê-la. No entanto, mais de mês se passou e estou aqui, falando dela. Larissa se embrenhou em mim.

A menina, a avó e o touro

A menina de cinco anos desconhecia as letras, mas amava as palavras. Na verdade, amava o que as palavras criavam ao seu redor. A noite já bem instalada, o quarto boiando na luz amarela do abajur, a avó de pijama com seu cheiro doce e as duas ali, radiantes, sob as cobertas. Vó, lê pra mim a história do touro Ferdinando? Pela centésima vez, a avó sorri, abre o livro de capa dura cor de rosa e a menina se vai para onde não se cansava de ir. Espanha, o país das touradas, como as primeiras linhas anunciavam.

Poderia passar a vida visitando o quarto da avó todas as noites. Era lá e em nenhum outro lugar que podia se encontrar com Ferdinando, o touro que conheceu a maldade dos espertos por ser bom. Mas que também arriscou a vida pelo justo, pelo correto. Era só lá e em nenhum outro lugar que a menina podia se nutrir do amor mais inesgotável que conhecia. Amor de vó.

Um dia, ela trouxe a novidade. Vó, consigo ler. Agora sou eu que vou contar a história do touro Ferdinando. Uma nova era se abriu. Noite após a noite a menina enchia os ouvidos da avó com a saga do touro manso. Às vezes, a repreendia, como a professora insatisfeita com a aluna avoada. Vó, para de dormir. Outras tantas vezes, seguiam enlaçadas. Até festejarem com palminhas a derradeira coroação de Ferdinando. De volta ao lar e ao jardim que tanto amava.

O livro voltava para a mesa de cabeceira, mas a menina e a avó prosseguiam alisando o amor que não via outra maneira de seguir que não fosse sendo repleto. Mas daí o avô chegava da sala, já de pijamas com botões e muitas listras, e as duas tinham que desmanchar o que as palavras criavam ao seu redor.

Não se sabe o dia em que a menina deixou de visitar o quarto da avó com seu livro predileto. Seu primeiro livro. Só se sabe que, como a vida quer, ela passou a se enlaçar com outros encantos. O touro continua na estante. E em seu coração de mulher feita. O amor de vó, esse não se foi, nem se vai. Pertence à menina. É a garantia de que ela saberá amar.

Certas tardes

Quem acredita que as noites são especialistas em sedução desconhece o apelo de certas tardes. Confesso que a maioria delas passa em rota batida até sumir no escurecer. Acendo as luzes para, como diz minha mãe, não forçar a vista, e recebo a penumbra assim, como um robô programado para apertar interruptores.

Mas certas tardes, ah, certas tardes não aceitam meu desprezo. Não mesmo. O céu pode estar cinza-aborrecido ou da cor da laranja. O cenário é o que menos importa. Crucial é ouvir o chamado. Ele é senhor quando ordena: “Pare um pouco e esqueça de tudo o que insiste em ser lembrado minuto a minuto, esse calabouço sem porta ou janela, e se ponha a perceber a vida acontecendo em você”.

Deus meu, há uma vida acontecendo em mim, estremeço. Vida esta que passaria em horas mortas não fosse o convite de certas tardes. Então, largo tudo e vou para o supermercado mais próximo, aquele cuja lanchonete faz divisa com a seção de flores. Pra mim, não há jeito melhor de entardecer do que bebendo café e comendo bolo, o mais simplório da vitrine. Tomo as plantas por acompanhantes e ali permaneço.

A mágica acontece invariavelmente entre 16:30 e 17:30.  Nessa hora esvoaçante, desgarrada do tempo, consigo sentir o vagar das ruas, ainda poupadas da impaciência do rush. A brisa encontra a pele. O canto dos pássaros tem a pureza de um acorde bem dedilhado. O coração parece absorver o morno do sol poente. O corpo inteiro reage sorrindo. Estou na cidade, mas tudo ao redor – e lá no fundo – é calma. Só posso concluir que certas tardes me chamam para ver e crer na brandura da paz.

Sobre carros, consertos e perdas

O homem que perdeu o filho conserta o motor do carro. A silhueta curvada sob o capô. Os pensamentos em ferramentas, engrenagens ruidosas, fumaça. Será possível? Tem de ser. Torço, da outra ponta da rua, sem ser notada. O que diria a este homem recém-dilacerado? Como flagraria seu desespero a meio metro sem transparecer pena? Como ofereceria algum consolo se sequer conheço o amor maior de todos – muito menos o precipício mais escuro?

O que faço pelas costas do homem debruçado sobre o motor, a 300 metros de distância, é quase infantil. Como acreditar que se a gente imaginar com força, olhos espremidos e dedos em X, a realidade nos atenderá. Pois foi assim que torci para que, naqueles instantes de dedicado serviço sob o sol, a utilidade mais banal o amparasse como a mão que salva. Torci para que, protegido pela tampa metálica, engajado na missão de trazer o carro da família à vida, ele encontrasse alguma trégua, um lapso de esquecimento, um dado raciocínio que o sequestrasse do seu drama, uma anestesia qualquer.

Mas como, se o filho agora ausente sempre o acompanhara nos cuidados solicitados pelos automóveis de vez em quando? Eram os dois amantes das máquinas. Juntos arrumavam, limpavam, poliam, lustravam. Faziam parte da rua como os paralelepípedos, as guias e as árvores mais resistentes. Era bonito passar e cumprimentá-los. Pai e filho partilhando o mesmo zelo, o mesmo empenho, o mesmo tempo. Ele grisalho, senhor. A cria adulta, tão homem quanto o pai. O que conversavam para além dos carros e dos reparos? De que suas risadas se abasteciam? O que seus silêncios compreendiam?

À essa altura do meu voyeurismo, escolho mudar o rumo da torcida. Que esse pai se lembre de cada conversa, de cada piada, de cada camaradagem. Que possa sorrir ou se emocionar sempre que uma lembrança vier se intrometer em seu serviço. E que, um dia, assim permitam as forças todas que nos levam adiante, possa se pacificar ante as coisas que não têm conserto.

Ao final da labuta, torço para que o homem em pé sob o sol feche o capô e leve o filho para passear. Por favor, se mantenha firme. Espremo os olhos. Até que a próxima avaria o solicite e o convença a remexer nas alegrias que ficam.

 

Dois

As madrugadas eram dela. Sempre foram. Tinham combinado. Os olhos tardariam a se fechar e, como prêmio, a cidade desapareceria. Restaria ela, toda, só. Ela e sua pequena célula de vida. Nas horas em que o mundo se retira para se esquecer, escutava seu coração, seu estômago, a lida dos pulmões, uma fisgada no pé. Somente nessa ausência de tudo o que bordeja a vigília conseguia enxergar as funduras que se abrem por dentro. Junto com o espanto – algo nela pulsa, se contorce, sobe e desce, espeta -, emergia a balbúrdia das vozes. Vence quem se desgarrar do tumulto. Elas também tinham acerto. Existência. Gostava de auscultar cada cifra menor dessa sinfonia autônoma. O que se oculta sob o clarão do dia, legítimo se torna no escuro.

Sem se opor, muito menos lamentar, perdera as madrugadas e, com elas, o contorno de célula. O apartamento inerte ecoa agora os suspiros dele. Jorro inevitável após longas baforadas. Jeito de conversar com a noite. Da varanda, o som avança como o viajante que intui o melhor caminho. Cruza a sala, atravessa as frestas da porta, espreita o quarto e, num afago lento, a envolve na cama. Capa que se cola ao corpo. Pele sobre pele. Dupla. Dois respiram a mesma madrugada. Antes de penetrá-la, o ar que ele devolve ao mundo serpenteia livros, discos, quadros, universo, outro, a ser possuído. Com os olhos rendidos, quase esquecida de si, ela saboreia a confirmação. Não mais exílio noturno. Só amor. Pode dormir. Em paz.

Breve reflexão sobre o amor e a tosse

“O amor é inevitável como a tosse”, compara a atriz em cena da peça Arrufos. Um encanto produzido pelo grupo XIX de Teatro.

A frase atinge o coração da coisa.

Vejamos.

A tosse sobe dos pulmões e estoura na boca, assim como a onda arrebenta o que estiver na sua rota.

Tanto em uma quanto em outra há evidente violência. Tossir vezes seguidas sobrecarrega o diafragma. Levar um caldo é experiência a não se repetir.

E o amor?

Tal qual a tosse, pode se mostrar contido, enviesado, sôfrego, escandaloso.

Sangrento.

Sempre fatal na sua aparição. Ainda que venha nos salvar.

Quando se vê, está feito.

Mas, ao contrário da tosse, devasta ao desaparecer.

Ou quando tarda a estourar em nossa boca.

O horizonte é verde-ondulado

Da minha janela avisto montanhas. Moro em São Paulo. É um milagre. Bem sei. Preciso zelar pela graça que é, todos os dias, repousar os olhos em ondas que almejam o céu. Adulo esse presente como se espantasse o pó do cristal. Ou desse colo ao recém-nascido. Cuidado. Muito cuidado. Se torço levemente o pescoço, para um lado ou outro, estou perdida. Enquadro edifícios. Corpos arbitrários de concreto. Meu verde horizonte se vai. Vence a vocação da cidade. Construção civil. Para-raios. Confinamento. Mas se volto a mirar firme lá adiante, negando que a visão também escorre pelos cantos, estou livre. Respiro e sonho nessa nesga que me sobra como a migalha ao faminto.

Montanhas são camaleoas. Encantam por serem muitas. Hoje se escondem sob um manto rarefeito. Qualquer matiz entre o cinza e o branco.  Mas na madrugada vem a chuva. Ahhhh. Sei que amanhecerão limpas e nítidas como se finalmente pusesse os óculos para melhor enxergá-las. Seu verde nessas horas lembra a bandeira da infância no desenho escolar. Verde-louro. Verdura eterna. Mais vida. Mais amores. Por gerações.

Em dias de sol exibido, sei que continuam ali, atrás da bruma incandescente. Porém, meus olhos fugitivos se espremem. Encará-las nesses momentos é penoso. Arde. Melhor deixá-las torrar e voltar para a toca. Mais tarde a gente se encontra, prometo antes de desenrolar a persiana.

A tarde se cola à noite. Posso ver as curvas alaranjadas das rochas, agora, bronzeadas. Tudo é morno e calmo. Degusto os últimos instantes em sua companhia. Um pássaro estaciona no telhado do vizinho. Distraio-me e pronto. O breu as levou de mim. E se nas alturas as estrelas me ignoram, estou sozinha. Beleza que Deus dá, só amanhã. A moça do tempo prevê céu de brigadeiro. Dia de encontrar montanhas de conto de fadas.  Aqui mesmo, na cidade empedrada.

Conviver é preciso

A pracinha é a porção arbórea mais próxima de casa. Recorro a ela nas tardes amenas e, por isso mesmo, avessas à ditadura do rendimento físico. Uma fita de asfalto a bordeja e nos serve de pista. A mim, às crianças montadas em suas bicicletas e em seus patinetes, aos atletas amadores, aos cães vadios e aos engomados, aos pedestres interessados em se emburacar no metrô, aos idosos em reabilitação, aos contemplativos de queixo erguido para melhor avistar a copa das árvores e também aos casais com seus bebês engolidos por carrinhos corpulentos.

Certa vez, peguei pela frente – e pelas costas – uma conjuração desse tipo. Pai, mãe e filhinho em repouso sobre rodas. A cada volta completa, propositalmente na delonga dos retardatários, tinha a chance de fisgar uma lasca da conversa. Fui petiscando, pestiscando, pestiscando, até encher o prato. O conflito central da narrativa poderia ser assim resumido: chefe de família investe esforço quase nulo para prover o sustento do lar.

A cada giro um novo argumento se encarregava de elevar o volume da arenga conjugal. De maneira que não precisei mais espichar os ouvidos. O conteúdo da discussão se enroscava em meus passos e me acompanhava uns bons metros; perfurava a célula privada do matrimônio para ganhar a acústica do coletivo.

Logo o bebê acordou e pôs-se a berrar. Com razão. Os adultos inflamáveis arruinaram seu passeio vespertino como também o meu, o das crianças montadas em suas bicicletas e em seus patinetes, o dos atletas amadores, o dos cães vadios e o dos engomados, o dos pedestres interessados em se emburacar no metrô, o dos idosos em reabilitação e o dos contemplativos de queixo erguido para melhor avistar a copa das árvores. Toda a comunidade atraída pelos encantos da tarde amena, espremendo a convivência numa fita de asfalto. Um dia a gente aprende.