Terra

Não esperava encontrá-la assim, após um preguiçoso virar de página, numa tarde branca, de poucas forças. Se tivesse desistido de folhear a revista para checar o celular ou simplesmente pendurar os olhos em um ponto aleatório através da janela, não a teria visto. Ou melhor, ela não teria aparecido para mim.

Pois lá estava ela, a Terra, suspensa no breu, como a viram os astronautas e como passamos a vê-la, nós todos.

De susto, arriei. E me sentei no chão da Lua, onipresente no primeiro plano da fotografia. Não sei como, mas, daquela distância abismal, enxerguei, nas funduras do nosso casulo azul, um grão. E, dentro dele, a dor humana. O que, até aquele momento, tinha a extensão do cosmos, somada ao peso de todas as estrelas, naquele instante, passou a caber num minúsculo grão.

Por efeito da perspectiva ou pelo arroubo de beleza – ou, uma terceira hipótese, por me descobrir viva naquela tarde – a face mortal da existência  se transfigurou em matéria ardente, multiplicação celular, vir a ser, futuro. Era tão óbvio lá de cima. Uma semente, embalada pela Grande Mãe Gaia, contém mundos, galáxias inteiras, principalmente aquelas, por ora, desconhecidas. Além do mais, do barro nascemos, ínfimos e, se a ele voltamos, enlameados de perplexidade, apequenados por todas as coisas que nos escapam, é para que possamos refazer nossos contornos, renascer em corpo e em espírito.

Chafurdava nas entranhas da Terra quando a atendente anunciou minha vez e, segundos antes de fechar o exemplar, algo se fez grito:

– Nenhum tormento é estático, tudo é água – berrou o planeta, para que, da Lua, eu, astronauta, o ouvisse.

 

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De volta ao fogo

A noite já havia se assentado quando a mulher fora atraída pelo crepitar da lareira.

Disse qualquer coisa a quem estava por perto e, como que envolta num feitiço, deslizou para junto do fogo.

Na saleta, uma velha bordava. Os estalos da lenha embalavam seu espírito que, por sua vez, modulava o subir e descer das mãos. Mantinha os olhos fixos no trabalho. Os óculos bem encaixados na ponta do nariz. Sequer espiou a recém-chegada.

A mulher, hipnotizada pelas chamas, compreendeu.

Adentrara um templo.

Um lugar de repouso.

Rapidamente, intuiu que, mesmo a fala mais cordial, pelo bem da convivência, seria uma desonra à atmosfera ancestral manifesta por aquela alquimia, tão antiga quanto necessária.

Calou.

E, nesse mesmo instante, como se dissesse a senha correta, sentiu o calor amolecer seu corpo e abrandar seu coração. A cabeça desocupada nada podia diante do corpo inebriado por aquele reencontro. Assim, rarefeita, mas encarnada, viu-se diante de outra lareira, sentada numa cadeira de balanço, de saia longa e xale. Cerzia um pedaço de pano. Protegida do frio e da noite.

Olhou para a velha, quieta como uma pedra. E sentiu profundo respeito por seu silêncio.

Gota a gota

Na hora da pressa mais aguda e atônita, quando os sinos da Ave Maria badalam para ouvidos surdos, e as pernas se colocam em fuga, e os corpos se amontoam debaixo da terra, e até o mais apaziguado ser humano é invadido por uma agonia anárquica, e todos querem passar, e todos querem chegar, e todos não passam de uma massa ensandecida, vejo o homem amputado.

Imune à selvageria da baldeação, ele vai no seu passo único. Gota a gota. As muletas por companheiras. Alheio à manada, saltita com o pescoço aprumado – nem derrota nem soberba. Concentrado, mas sem rugas de esforço, feito um atleta experiente, ele avança. E vê. Na sua meditação compulsória, o homem amputado vê o que ninguém vê.

Como apenas o vejo, não as coisas que ele vê, me ponho a imaginar as revelações que se mostrariam, como aparições místicas, somente a ele. Ele, o eleito.

Vejamos.

Dorsos curvados, quase vencidos, mas ainda fiéis à luta; o sono imaculado do bebê sob a fralda finíssima que a mãe ajeita e de novo ajeita enquanto equilibra a sacola apoiada na dobra do cotovelo; o rosto espinhento da adolescente que faz do cabelo cortina para sua vergonha; a truculência à espreita no craquelado-vermelho-sangue dos olhos do segurança maior do que todos; os namorados se esgueirando e se contorcendo para manter as mãos enlaçadas em meio à enxurrada de braços e ombros e troncos e quadris e nádegas; a pele amarela do homem que definha debaixo da roupa folgada e leva consigo uma sacola plástica da farmácia popular; e tantos outros homens e mulheres tentando chegar, todos os dias, em algum lugar.

Enquanto não chegam, perdem seus contornos e se fundem num imenso corpo-aceleração-que-tudo-atropela. Já o homem amputado se move, como a vida, gota a gota.

Feliz Ano Novo

No último dia do ano, o céu despeja suas águas com fúria. Seria um recado? Um prenúncio? Um banho, prefiro acreditar. Limpeza necessária, por isso, a veemência do temporal. Por trás de cada trovão, ecoa o mandamento celestial: “Tenhas a coragem de limpar as sujeiras mais arraigadas, quase pedras de tão calcificadas”. O velho “deixar ir”. Fácil não é. Algo em nós quer virar pedra. Permanecer. Feito as estátuas da Antiga Roma. Os séculos se sucedem sem descanso e elas continuam lá, crispadas de pompa e orgulho. Queremos mesmo um novo ano? Aceitamos sacrificar nossas estátuas em nome do que não conhecemos, apenas supomos? Eis aí um ato de fé, mesmo para aqueles que em nada creem.

A chuvarada se foi. O “bombardeio” sobre o telhado cessou com a mesma contundência da sua chegada. Deixou um vácuo. Silêncio abafado, logo tomado  pela feliz cantoria dos passarinhos. Migro da Roma Antiga, tão tumultuada, para os campos do Éden ou de qualquer outro paraíso terrestre. Eles existem. Em algum lugar, eles existem. É por isso que vamos,  como lembra o poema do português Sebastião da Gama: “Pelo sonho é que vamos, comovidos e mudos. Chegamos? Não chegamos? Haja frutos ou não frutos. Pelo sonho é que vamos”.

Mas, antes, é preciso estar limpo.

Que o próximo ano irradie a luz de que necessitamos!

A menina do baú

Dia desses assisti a um debate sobre o fundamental hábito da leitura. Como firmar o elo entre escritor e leitor? A quem caberia tal responsabilidade? À escola? Aos pais? Ao governo? O papo enveredou por essas vielas ainda tortuosas e mal iluminadas. Tristeza nossa.

Alegria minha. Imediatamente uma faísca de memória me trouxe a menina do baú. E com ela a consciência da fartura, somada à sorte de ser a terceira da fila. O posto de caçula, nem sempre confortável, me permitiu, em compensação, o regalo dos regalos: desfrutar um baú abarrotado de livros.

Minha arca-biblioteca-encantada foi crescendo à medida que meus irmãos liam por imposição escolar aquelas simples brochuras – na visão deles, não na minha -, posteriormente arremessadas dentro da caixa de madeira embutida, que fazia as vezes de cabeceira da minha cama. Crimes nebulosos, amores inocentes, achados do nosso folclore, amizades de ruas (naquela época não se falava em condomínios), medos e descobertas atrelados à inevitável marcha do crescer. Tudo muito bem prensado pelo meu baú.

Quantas vezes manuseei aqueles volumes. As palmas das minhas mãos para sempre recordarão o prazeroso expediente repassado por anos a fio. O compromisso consistia em apanhar os exemplares, perfilá-los, agrupá-los, bagunçá-los, pra depois inventar uma nova ordem, num eterno recomeço. E o cheiro. Hum. Tão familiar, tão meu. Ainda bem que a rinite estancou no irmão do meio. Saí ilesa. Caçula tem uma sorte danada!

Sorte maior foi ter carregado meu baú até aqui. Claro, a cama de madeira com o caixote acoplado partiu na caçamba de uma kombi. Eu adolesci; ela procurou outra criança. Os livros, por sua vez, passaram anos enfurnados em caixas lá no alto do maleiro. Até que, num rompante de desapego, os libertei. Desde então, a biblioteca infanto-juvenil do bairro espichou um bocadinho. Mas nada disso altera o fato de que até hoje meu tesouro de papel vela minhas noites. E acende meus dias.

A menina do baú era rica. Talvez não soubesse disso. A mulher que ela veio a ser desconhece fortuna maior.

Gratidão

O Dia de Ação de Graças passou. Mas não a minha vontade de agradecer.

Justo nesse dia, ainda há pouco, um agradecimento bateu à minha porta. Era dia de fechar os olhos e sentir gratidão. Àquela altura, hora do almoço, não sabia. E, por essas tramoias do “acaso”, calhou de eu receber, primeiro, a graça.

O homem, falando por toda a família, agradecia uma história. Uma história de amor e de dor. História de uma saudade.

Acomodei o gesto emocionado na dobra mais quente do meu coração. Lá ele ficará.

Mas, desprevenida – como antever a chegada da graça? -, fui incapaz de devidamente embrulhar e devolver-lhe a minha gratidão.

Faço isso agora.

De mãos coladas, agradeço o visitante pela generosidade de reavivar a minha fé na escrita. Dou graças por ele, do alto do seu calvário, atestar que as palavras podem ser bálsamos predestinados a repousar no coração dos homens.

Sinal de vida

Hoje o dia me pediu uma palavra, um aceno. Como o pai aflito diante da mudez do filho. Se ele soubesse quanto barulho se esconde boca adentro, talvez não me procurasse. Mas o fato é que o dia entrou pela janela e me pediu um sinal de vida. Respondo. Ou melhor, conto. Prefiro contar por onde a vida tem andado.

Outro dia, ela se enfiou num vaso. Intrusa. Descarada. Apareceu verdinha como se dona fosse da terra há tempos ocupada pela suculenta que multiplica seus gomos quase como por milagre. Como pode viver e se reproduzir com o mínimo de água? E nós aqui tão necessitados de tanto. Agora, as duas partilham o mesmo diâmetro. Estão bem. Crescem lado a lado. Como irmãs.

Dia desses, a vida se fez gato. Uma amiga não suportou os gemidos que fizeram doer a madrugada e adotou o bichano como filho. Acostumada a ser susto, a criatura ganhou nome e sobrenome. Comida, teto e chamego. Descobriu que pode se erguer e andar sobre o carpete quentinho. Descobriu que pode miar. De alívio. E de alegria. A dona, por sua vez, descobriu mais uma sobre a vida. E sobre si mesma.

Por essas semanas, também preciso contar, a vida se instalou na minha testa. No começo, era uma leve dobradura, uma linha indecisa num papel ainda virgem. Agora é um traço definitivo. Um carimbo da existência que ora me espanta, ora me agrada. É a vida se imprimindo na face exposta ao mundo. Talvez um esboço ínfimo da paisagem que se desenha do lado de dentro. Assim espero. O fato é que o tempo escorre. E eu corro, deito, levanto, me encolho, me estico. No momento, não sei bem o que fazer com ele. Talvez, só precise deixar que ele se faça tempo em mim. Para isso existe a palavra – salvadora. No tempo da palavra, eu e você, que me lê, estamos como que foragidos do tempo. No tempo da palavra, a vida é outra. Essa outra vida que nutre o bebê que sempre seremos.

Por falar em bebês, a vida tem andado em uma porção de barrigas. Grávidas. Quantas grávidas me rondam. Quanta alegria pode caber numa semente. Manuela, Beatriz, Rita, Joaquim. Aqui fora há muita vida, o tempo todo, em todo canto. É tanta vida que, às vezes, de espanto, calamos. É tanta vida, que, às vezes, por alento, contamos. Para responder aos dias, vivemos. Mas isso é conversa de gente grande. Por ora, desejo a vocês uma bela chegada.

Brinque, criança, brinque

Por que você está sem graça hoje?, perguntou o menino com as sobrancelhas espremidas. Ele poderia ter ido mais fundo com sua espada. Mas, equilibrando-se entre a possibilidade de estar bravo ou decepcionado, ou as duas coisas, algo nele, amor talvez, quis poupar a mulher da verdade. Disse somente metade do que gostaria de ter dito. Mas ela sabia. E naquele instante pôde enxergar na queixa do menino o rastro azedo de seus dias. Como explicar para a criança que os adultos por vezes se cegam? A graça se desprende dos olhos. Só há breu. Por um tempo. Um tempo sem aviso. Mas não se canse de mim, ela quis dizer. Vou voltar. Um dia vou voltar. E daí poderemos rir o mesmo riso. Estou até vendo. Vamos nos lambuzar dessa alegria boba, que chega pela barriga e faz o corpo inteiro coçar de tão bom que é ser feliz. Façamos melhor. Vá brincando aí, rente às minhas pernas. Escolha um pedaço de tapete. Não vou a lugar algum. Prometo. Vá enchendo os instantes, rodopie, vire uma cambalhota, embarque num foguete e visite a lua, duele com dragões e, quando o cansaço chegar, cochile numa nuvem de algodão. Estarei aqui. Faça isso. Vá saltitando. De brincar em brincar, o dia será outro e mais outro. E quando estiver longe, no alto da árvore, agarrado ao cipó, ou do outro lado da colina, onde é bom de soltar pipa, nem perceberá que eu me sentei ao seu lado no tapete. E que agora meu rosto todo sorri.

Uma hora com Larissa

Ela se sentou no meio. Numa ponta sua mãe estendia os pés para a manicure; na outra, eu fazia o mesmo com as mãos. Até então não havia reparado em seus olhos verdes que cintilavam a cada coisa narrada. Só ouvia sua tagarelice. Mãe, olha quanta coisa eu escrevi nesse caderno hoje.  Tenho lição de português e geografia. E prova marcada de matemática.

Muito entusiasmada a garota ia tirando cadernos e livros da mochila. Folheava as páginas com gosto. Exibia para a mãe a caligrafia e as contas e as histórias. A vida escolar era boa. Sua vida era boa. Larissa irradiava a alegria que encontrava em tudo. Não me contive. Virei o rosto para finalmente conhecê-la. Queria saber daquela menina. Como também me mostrar para ela. Queria que nossas vidas se encontrassem.

Quando revelei ter estudado na mesma escola, vi pela primeira vez seus olhos verdes cintilarem. Duas esmeraldas me encaravam fascinadas. Imediatamente viramos colegas. Primeiro Larissa me cobriu de perguntas. Saciada sua curiosidade de menina, me pegou pela mão e me levou para conhecer sua vida. Se estivéssemos caminhando, certamente ela saltitaria. Sem dúvida, ela saltitaria.

Como uma anfitriã plena nesse papel, Larissa me mostrou seu estojo e a coleção de canetas coloridas. Depois passou rasteira pela agenda, pois queria mesmo me apresentar o bolo de figurinhas metido numa bolsinha em forma de laço. Minhas unhas já estavam na etapa do esmalte, então ela se apressou para ligar o celular e introduzir seus entes queridos: os pais, a avó, os tios, os primos, o cachorro. Também pude vê-la no cinema, com um saco de pipoca no colo. Numa pose em plena brincadeira de boneca com as amiguinhas. No rasinho do mar, feliz como só uma criança pode ser no rasinho do mar. Ainda flagrei a pizza, o parque, o boliche, a festinha.

Larissa e eu conhecemos o que chamam de intimidade. Mas tive que deixá-la. Nosso tempo juntas estava predestinado a caber em uma hora. Assim pensei naquele instante de tchau, foi um prazer conhecê-la. No entanto, mais de mês se passou e estou aqui, falando dela. Larissa se embrenhou em mim.

A menina, a avó e o touro

A menina de cinco anos desconhecia as letras, mas amava as palavras. Na verdade, amava o que as palavras criavam ao seu redor. A noite já bem instalada, o quarto boiando na luz amarela do abajur, a avó de pijama com seu cheiro doce e as duas ali, radiantes, sob as cobertas. Vó, lê pra mim a história do touro Ferdinando? Pela centésima vez, a avó sorri, abre o livro de capa dura cor de rosa e a menina se vai para onde não se cansava de ir. Espanha, o país das touradas, como as primeiras linhas anunciavam.

Poderia passar a vida visitando o quarto da avó todas as noites. Era lá e em nenhum outro lugar que podia se encontrar com Ferdinando, o touro que conheceu a maldade dos espertos por ser bom. Mas que também arriscou a vida pelo justo, pelo correto. Era só lá e em nenhum outro lugar que a menina podia se nutrir do amor mais inesgotável que conhecia. Amor de vó.

Um dia, ela trouxe a novidade. Vó, consigo ler. Agora sou eu que vou contar a história do touro Ferdinando. Uma nova era se abriu. Noite após a noite a menina enchia os ouvidos da avó com a saga do touro manso. Às vezes, a repreendia, como a professora insatisfeita com a aluna avoada. Vó, para de dormir. Outras tantas vezes, seguiam enlaçadas. Até festejarem com palminhas a derradeira coroação de Ferdinando. De volta ao lar e ao jardim que tanto amava.

O livro voltava para a mesa de cabeceira, mas a menina e a avó prosseguiam alisando o amor que não via outra maneira de seguir que não fosse sendo repleto. Mas daí o avô chegava da sala, já de pijamas com botões e muitas listras, e as duas tinham que desmanchar o que as palavras criavam ao seu redor.

Não se sabe o dia em que a menina deixou de visitar o quarto da avó com seu livro predileto. Seu primeiro livro. Só se sabe que, como a vida quer, ela passou a se enlaçar com outros encantos. O touro continua na estante. E em seu coração de mulher feita. O amor de vó, esse não se foi, nem se vai. Pertence à menina. É a garantia de que ela saberá amar.