Salve, Djavan!

Djavan, o guardador de carros da rua detrás, bem poderia ser meu vizinho. Todo dia me vê passar e, não contente em acenar, grita do outro lado da calçada: “Oi, tia”. Vez sim, vez não, pergunta pelos meus sobrinhos. Se esquece os nomes dos pequenos, pede que eu socorra sua memória. Outro dia, me interpelou preocupado: “Você emagreceu demais. Está tudo bem?”. Tempos atrás, sumiu. Tantas possíveis tragédias me rondaram naquele período…Até que reapareceu, mancando. Contou que foi atropelado por um ônibus e, sem grana para a fisioterapia, recuperou parte da mobilidade andando de bicicleta pelo bairro. Djavan nunca me pediu esmola ou prato de comida. Portanto, nada me deve. É tão somente uma alma gentil, como pouquíssimos condôminos do meu edifício.

Djavan, o guardador de carros da rua detrás, ainda vive. Mas já é possível sentir as baforadas da morte em seu entorno. Franzino sempre foi. Questão de genes. Agora, se arrasta pelo bairro escorado por ossinhos de criança a espetar a pele. Nas mãos, dois canos de PVC a emprestar-lhe alguma misericórdia. Numa existência de improviso em improviso, até na hora da morte é preciso remendar. “Se eu ficar em casa sem trabalhar, não arrumo trocado”, disse certa vez, quando vida ainda havia em seus pulmões. Ontem, depois de longo sumiço, só conseguiu esboçar em sílabas partidas pelo fôlego rarefeito: “A-do-e-ci”. Em seguida, sorriu, ejetando os dentes destacados pelas covas da magreza. Um sorriso marcado para se fechar.

Djavan, o guardador de carros da rua detrás, se foi. Há meses. Desde nossa última conversa, não o vi mais. Vasculhei seu paradeiro no restaurante, no posto de gasolina, na farmácia. Ninguém para confirmar o que antecipara seu vulto cambaleante. A rua ficou mais vazia, embora apinhada de carros. Dia desses notei a chegada de um novo profissional das guias. E pensei em Djavan. Tantas eram as nossas diferenças – de classe social, de cor, de ocupação, de horizonte – mas, nas frestas fadadas a durar migalhas de segundos, ele sorria e eu sorria de volta. Ou o contrário. Nesses instantes, pertencíamos à mesma irmandade.

Travessia

Moro a dois metros da família vizinha. Nossas janelas são comadres por decreto arquitetônico. Partilhamos ano após ano uma intimidade compulsória. E barulhenta. Conheço as mazelas do casal, o chiado da panela, o zumbido do aspirador de pó, as brincadeiras prediletas das duas meninas. Laura, primogênita; Camila, a caçula. Do lado de lá, devem espreitar, com certa curiosidade, minhas andanças noturnas. Os disparos dos dedos no teclado, o chuveiro inundando a madrugada, o telefonema da amiga, o filme, os suspiros.

Uma laje estreita liga nossos apartamentos como passarela alada. Gosto de pensar que um dia firmarei os pés sobre o concreto e adentrarei esta outra casa. Lá encontrarei meu futuro. O homem. As filhas. A família. A mesa posta. A sala habitada por um emaranhado de vozes. Às minhas costas, terei a moldura dos meus anos mais solitários. Gosto de pensar que a qualquer hora poderei fazer o caminho de volta. Não saberia viver sem meus ruídos e silêncios. Ainda que à minha volta tenha todo o amor do mundo.

A seca desceu

Como digo no perfil deste blog, sou uma paulistana importada do Recife. Enredada na sina dos adultos, deixei o mar e me meti debaixo da garoa aos dois anos de idade. Escapei do sotaque lá de cima como também do sentimento de pertença a uma cultura ensolarada e resiliente. Por muito tempo, Pernambuco se espremeu dentro de um cartão-postal. Férias no azul-esverdeado. Esse outro que se sobrepunha ao cinza dos meus dias úteis.

Nesse nordeste-passagem o drama da seca se resumia a uma tela pregada na parede da casa da tia querida que nos dava abrigo a cada punhado de anos. Quanta euforia esparramada pelos cômodos ladrilhados e pelo gramado onde eu, meus irmãos e os primos desfalecíamos no colo da tarde retirante. Moles de brincadeiras adocicadas pela maresia, sabíamos que o asseio nos permitiria tomar lugar à mesa. Comprida e farta de sabores estrangeiros ao meu paladar educado em outra freguesia.

Indo e vindo de alegrias condimentadas como só lá era possível, um chamado me fazia estancar toda vez que cruzava aquele pedaço da sala. Torcia o pescoço e eles permaneciam ali. Bois esquálidos com grandes olhos tristes vagando sobre a terra craquelada. Seca de esperança.

O incômodo, entretanto, se desvanecia pelas mãos maternais do alívio. As agruras do sertão esfolavam povoados distantes da minha cidade, pensava – sim, postiço passou a ser o berço convertido em destino turístico. Naquela época, São Paulo só conhecia a secura do asfalto e dos modos da sua gente talhada na pressa. Seguia protegida pelo acolchoado da prosperidade. No entanto, contra todas as expectativas, a estiagem desceu. O nordeste se instalou na casa paulistana e dessa vez seus filhos-gado desgarrados estão dispensados da culpa. Os baldes – símbolos da penúria lá de cima – agora recaem vazios sobre nossas cabeças sulistas. Quem diria, a capital de grifes caudalosas e cantareiras de terra batida teme o dia em que suas torneiras amanhecerão mudas. Os bois desamparados também somos nós, aqui debaixo.

Brincadeira de boneca

Vovó, ex-tricoteira de agulhas hiperativas, a cada dia se emaranha um bocado mais nos fios da realidade e da invenção. Com eles faz ziguezague, embora enxergue carreiras retilíneas, conforme seu padrão de qualidade – quantas vezes, enquanto me ensinava o tricô, me obrigou a desmanchar fileiras inteiras deformadas pelo excesso de buracos. Sob suas asas, aprendi a demolir o erro e a tramar outra vez o que precisava sair bem feito. Melhor escola, impossível.

Agora, assisto à sua brincadeira em outro sofá, em outras companhias. Velha assaltada pelos quereres e trejeitos de criança, ela embala a boneca da colega na casa de repouso. Ora pisca para nós, cuidando para manter intacta a fantasia da sua mais recente amiga, uma senhora de 90 anos em avançado estágio de Alzheimer, ora exalta a formosura do bebê de plástico. Dá um nó para em seguida desfazê-lo, se amarra à normalidade, mas logo se solta. E começa a fiar delírios.

A sala de visitas é um retângulo de lajotas cor de creme contornado por poltronas de courino preto. Alguns assentos estão carcomidos. Dos pequenos orifícios aflora a espuma gasta. Não mais subterrânea. Só não vê quem vira o rosto. Ali, grande parte dos internos cochila, alheios às suas próprias carcaças, que dirá ao odor de urina que as fraldas, impotentes, são incapazes de reter. Vovó aproveita a tarde para brincar. A boneca reempossou o colo antes rechonchudo e ocupado. Procuro alguma dignidade no gesto. E a encontro. Ao menos, para aliviar o incômodo de flagrar sua imersão num tempo muito anterior à minha chegada à teia de seus descendentes. Como sempre fizera com seus três rebentos e com as oito crias de suas crias e, mais tarde, vigiada por olhares reticentes, também com os dez filhos dos filhos de seus filhos, ela cuida. Melhor do que dormir com a cabeça tombada ou mirar com olhos babados a tela de 60 polegadas, trambolho que nada diz, nada ecoa.

 

O rótulo que seremos

Uma amiga está grávida. Carrega Rafael, chutador de primeira. Na verdade, ela carrega Raphael, com o velho “ph”. Ao saber desse detalhe literalmente familiar, conto pela enésima vez que meu nome, não só o “ph”, é homenagem à bisavó, mulher do século 19. Época em que não havia uma farmácia em cada esquina, somente a pharmácia do bairro chefiada pelo boticário amigo da família. Na minha imaginação, as prateleiras amadeiradas exibiam recipientes de vidro com rótulos, hoje, intraduzíveis. Piso de ladrilhos portugueses, claro. Consigo ouvir o som das botas tac-tac-tac e sentir o cheiro de mofo dos chapéus das damas, amontoado de flores secas e rendas esmaecidas, como as donas.

Sufocado pela poeira do tempo, o “ph” sobrevive, como também a memória dos que partiram. Ao contar pela enésima vez a origem do meu nome, disparei um comentário sobre minha bisavó, temperado com aquela risadinha de quem é superior, jovem, vivo. Em seguida, atinei para o fato de que um único e, por certo, injusto adjetivo se colou à sua pessoa: rabugenta de primeira. Imagine atravessar uma existência engolindo as ironias da vida, suavizando as durezas do cotidiano, o tanque, o forno a lenha, o galinheiro, a viuvez precoce e os quatro filhos, para, no final, ter sua biografia reduzida a uma etiqueta. No caso, em nada lisonjeira.

Há um livro ainda inédito pra mim, cujo título me assombra: “A ausência que seremos”, do colombiano Héctor Abad. Dizem que ele se inspirou no primeiro verso do soneto “Epitáfio”, atribuído ao argentino Jorge Luis Borges, que diz: “Ya somos el olvido que seremos”. Agora me preocupo. No futuro – distante, espero -, minha ausência será lacrada com qual rótulo? Prometo, e vocês são testemunhas, que farei diferente. Rabugenta foi minha bisavó. Eu, também Raphaela com “ph”, serei outra.

A noite em que o pagodão venceu

Um bocado de gente adora tomar banho de sol. Poucos, menos convencionais, preferem se deitar sob a lua. Eu gosto mesmo é de me lambuzar de silêncio, este néctar das madrugadas. Tenho a sorte de viver num bairro que exala calmaria noturna. Entre um zumbido de motor e uma freada de ônibus ao longe, podem gotejar bons minutos. Aproveito a apneia urbana para massagear os tímpanos. Um detox auditivo mesmo. Fecho os olhos e torço para que a próxima motoca demore a roncar na avenida. Costumo ser atendida.

Desfio esse tanto de prosa para dar a medida do abuso perpetrado pelo pagodão, munido de amplificador e microfone, que, subvertendo os costumes locais, maculou a pureza sonora da minha madrugada. Cidadã, disquei 153 (Guarda Civil Metropolitana). Dois toques e, do outro lado, um “bom dia” embriagado de sono – ou de indiferença.  Fico sabendo que a polícia militar já havia sido recrutada por uma saraivada de telefonemas queixosos e que estava a caminho. Ingênua, acreditei.

E esperei.

Lá pelas tantas, percebi que havia migrado da ala dos incomodados para a plateia do evento. A vizinhança inteira não teve outra escolha. À exceção dos que dormem feito anjos de pedra, seguimos, com ouvidos despertos, até a saideira, um mix de três ou quatro músicas, como preza a tradição. Batuque a galope e nada da sirene. Esperei por ela como os aposentados nas filas do INSS, os doentes nos corredores dos hospitais, os favelados nas listas dos conjuntos habitacionais.

Quase manhã, a festa acabou, o silêncio, enfim, retomou sua soberania e eu sobrei de olhos abertos, sem sono e sem voz. Difícil dormir com a impotência entalada na garganta.

Sala de espera

Vovó desistiu. Não quer banho, comida, novela. Passeio, então, que chatice! Diz que todos têm a sua hora e que a dela há de chegar. Aguarda o sinal da saída debaixo dos lençóis. E toda noite se perfuma para o caso de despertar do lado de lá.

Também já escolheu a cor das flores: lilás, como a parede do quarto. Sua preferida. Digo que ela deveria ser grata. Foi poupada de agulhas, paralisia, espasmos, sufocamento. É uma idosa tardia, porém saudável. Um trevo de folhas quase centenárias. Ela me corrige. “Não, filhinha, tenho a doença do esquecimento”. Inclinada desde jovem a certo drama, enquanto decreta sua sentença, desliza o indicador de uma extremidade à outra da testa, como se puxasse um zíper invisível. “Os nomes me escapam. Além do que, estou muito cansada. Mesmo sem fazer nada. Nada. Não faço mais nada. Apetite não tenho, muito menos paciência para a televisão”, suspira pesado e emenda: ” Não queira ficar velha, minha filha”.

Não cabe a mim decidir. Como a senhora diz, todos têm a sua hora. Compramos ingresso para a mesma caravana, esqueceu? “Não se preocupe, filhinha, já conversei com Jesus. Você ainda será muito feliz”. Gosto de ouvir isso. Desejo de vó tem poder. E, considerando que a reza virou atividade única, creio que suas solicitações avançam pela fila preferencial. A insistência faz milagres. Como abrir mão dessa regalia? Uma rezadeira particular a rogar por mim dia e noite.

Vó, sei que o tédio é de matar. Por isso, a despeito do meu egoísmo, me esforçarei para sorrir ao senti-la cruzar, perfumada, o portão de embarque.

O barato da faxina

Venho falar de faxina, logo eu que, por falta de aptidão e de nervos, jamais poderia apresentar aquele programa da TV formatado para invadir residências de gente “comum”, devassar armários e gavetas e, em troca, executar melhorias – sim, o planeta comporta pessoas que preferem terceirizar a ordenação de calcinhas e cuecas a ter de, elas mesmas, manusear sua intimidade. Estranho mundo.

Como careço de verba e de estômago para contratar um personal organizer, aproveitei as férias domiciliares – involuntárias – para dar cabo da bagunça. Na entressafra do calendário gregoriano, encontro o incentivo que me falta no restante do ano: a promessa de renovação generalizada. À procura desse elixir, segundo a crença coletiva, capaz de higienizar os diversos escaninhos da vida, me atiro sobre meus pertences em desalinho com tamanha voracidade que chego a desconfiar: “Quem é essa que agora me possui?”. Continue lendo

Dona Francisca

Avancei duas casas no tabuleiro da minha rua e desembarquei no interior. Em frente ao portão, diminuto como a proprietária, bati palmas e esperei por Dona Francisca. Num átimo, esquadrinhei a residência da costureira. Um magrelo corredor ladrilhado com cacos de cerâmica cor de terra conduz à fachada, larga o suficiente para acomodar janela e porta. Dois casebres de madeira flutuam rentes ao beiral do telhado. Iscas de beija-flores. Tristes de tão vazias. Onde estariam seus inquilinos na cidade de concreto? Com que frequência visitavam seus abrigos?

Já ia imaginando bailados aéreos ou mesmo a moradora, cotovelo no batente da janela, ansiando pelo espetáculo sempre adiado, quando dona Francisca apareceu.  Pergunto se está ocupada, se chego em má hora. Sorrindo e alisando o avental, ela explica que lavava a louça, mas que pratos e copos sujos são apenas pratos e copos sujos. Desimportantes. E coisas desimportantes podem esperar. Pra quê pressa? Aliás, confidenciou-me, não entendia por que as pessoas viviam ralhando com o relógio, deixando rastro de vento, bufando e enxugando suor, como se urgente não fosse viver e sim prestar contas a sabe-se lá quem. Em casa de dona Francisca, o depois sabe esperar sua vez.

Mas eu não. Continue lendo

Socorro! Não posso ficar sem ela

O jornalismo, meu ofício e esteio, agoniza. Logo, a grana emagrece enquanto as contas começam a assustar a balança, contrariando minhas projeções juvenis de futuro. Não vejo saída. Vou ter que abraçar a faxina. Não me entendam mal. Não pretendo trocar a pena pela vassoura. Mas, aqui em casa, terei de assumir o serviço. Graças a Deus, tenho força nos braços. Longe de mim fazer chiadeira por causa disso. O dilema é outro. Há meses, tomei a decisão. Não vai dar. Neia, embora atlética, está pesada. E há meses venho relutando em dar a notícia à minha diarista. Raio de sol vindo do interior da Bahia, que, como contei certa vez, além de limpar, passar e lustrar, cuida, por querer, do meu miúdo jardim. Como dizer adeus, meus amigos, ao funcionário irretocável?

Às vezes, penso que Neia é cria da minha imaginação. Só pode ser. A cada quinzena, despenca da periferia de Guarulhos e, faça chuva, sol, tenha greve, passeata, revolução, às 7:30 da matina me acorda, infalivelmente, com um sorriso na fronte, cabelos engomados e um nada incômodo aroma floral. Há anos assisto a esse replay. Provavelmente, nessa larga fatia de tempo, ela brigou com o marido, varou a noite sacolejando o filho doente, teve dor na coluna ou coisa pior. Nunca transpareceu um fiozinho de agonia, revolta ou tristeza. Só cansaço. É humana. Uma única vez, passou mal durante a lida. Crise de enxaqueca. Levou bronca. Por que se atreveu a vir trabalhar nesse estado? “Não ia te deixar na mão”. Gosto de lembrar da resposta nos momentos em que alguns, por perturbação ou gênio ruim, se comprazem em mostrar sua face movediça. A beleza de quem não se sabe belo tem sustância. Guarnece de fibra o espírito dos que a alcançam.

Agora, me digam, como posso bater a porta na cara desta criatura, esta sim, diferenciada? Peço a todos que engrossem a reza para que o jornalismo saia da UTI, de modo que o cachê volte a encorpar e eu possa continuar recebendo essa iluminada visita quinzenal.