Dois

As madrugadas eram dela. Sempre foram. Tinham combinado. Os olhos tardariam a se fechar e, como prêmio, a cidade desapareceria. Restaria ela, toda, só. Ela e sua pequena célula de vida. Nas horas em que o mundo se retira para se esquecer, escutava seu coração, seu estômago, a lida dos pulmões, uma fisgada no pé. Somente nessa ausência de tudo o que bordeja a vigília conseguia enxergar as funduras que se abrem por dentro. Junto com o espanto – algo nela pulsa, se contorce, sobe e desce, espeta -, emergia a balbúrdia das vozes. Vence quem se desgarrar do tumulto. Elas também tinham acerto. Existência. Gostava de auscultar cada cifra menor dessa sinfonia autônoma. O que se oculta sob o clarão do dia, legítimo se torna no escuro.

Sem se opor, muito menos lamentar, perdera as madrugadas e, com elas, o contorno de célula. O apartamento inerte ecoa agora os suspiros dele. Jorro inevitável após longas baforadas. Jeito de conversar com a noite. Da varanda, o som avança como o viajante que intui o melhor caminho. Cruza a sala, atravessa as frestas da porta, espreita o quarto e, num afago lento, a envolve na cama. Capa que se cola ao corpo. Pele sobre pele. Dupla. Dois respiram a mesma madrugada. Antes de penetrá-la, o ar que ele devolve ao mundo serpenteia livros, discos, quadros, universo, outro, a ser possuído. Com os olhos rendidos, quase esquecida de si, ela saboreia a confirmação. Não mais exílio noturno. Só amor. Pode dormir. Em paz.

Anúncios

Breve reflexão sobre o amor e a tosse

“O amor é inevitável como a tosse”, compara a atriz em cena da peça Arrufos. Um encanto produzido pelo grupo XIX de Teatro.

A frase atinge o coração da coisa.

Vejamos.

A tosse sobe dos pulmões e estoura na boca, assim como a onda arrebenta o que estiver na sua rota.

Tanto em uma quanto em outra há evidente violência. Tossir vezes seguidas sobrecarrega o diafragma. Levar um caldo é experiência a não se repetir.

E o amor?

Tal qual a tosse, pode se mostrar contido, enviesado, sôfrego, escandaloso.

Sangrento.

Sempre fatal na sua aparição. Ainda que venha nos salvar.

Quando se vê, está feito.

Mas, ao contrário da tosse, devasta ao desaparecer.

Ou quando tarda a estourar em nossa boca.

O horizonte é verde-ondulado

Da minha janela avisto montanhas. Moro em São Paulo. É um milagre. Bem sei. Preciso zelar pela graça que é, todos os dias, repousar os olhos em ondas que almejam o céu. Adulo esse presente como se espantasse o pó do cristal. Ou desse colo ao recém-nascido. Cuidado. Muito cuidado. Se torço levemente o pescoço, para um lado ou outro, estou perdida. Enquadro edifícios. Corpos arbitrários de concreto. Meu verde horizonte se vai. Vence a vocação da cidade. Construção civil. Para-raios. Confinamento. Mas se volto a mirar firme lá adiante, negando que a visão também escorre pelos cantos, estou livre. Respiro e sonho nessa nesga que me sobra como a migalha ao faminto.

Montanhas são camaleoas. Encantam por serem muitas. Hoje se escondem sob um manto rarefeito. Qualquer matiz entre o cinza e o branco.  Mas na madrugada vem a chuva. Ahhhh. Sei que amanhecerão limpas e nítidas como se finalmente pusesse os óculos para melhor enxergá-las. Seu verde nessas horas lembra a bandeira da infância no desenho escolar. Verde-louro. Verdura eterna. Mais vida. Mais amores. Por gerações.

Em dias de sol exibido, sei que continuam ali, atrás da bruma incandescente. Porém, meus olhos fugitivos se espremem. Encará-las nesses momentos é penoso. Arde. Melhor deixá-las torrar e voltar para a toca. Mais tarde a gente se encontra, prometo antes de desenrolar a persiana.

A tarde se cola à noite. Posso ver as curvas alaranjadas das rochas, agora, bronzeadas. Tudo é morno e calmo. Degusto os últimos instantes em sua companhia. Um pássaro estaciona no telhado do vizinho. Distraio-me e pronto. O breu as levou de mim. E se nas alturas as estrelas me ignoram, estou sozinha. Beleza que Deus dá, só amanhã. A moça do tempo prevê céu de brigadeiro. Dia de encontrar montanhas de conto de fadas.  Aqui mesmo, na cidade empedrada.

Conviver é preciso

A pracinha é a porção arbórea mais próxima de casa. Recorro a ela nas tardes amenas e, por isso mesmo, avessas à ditadura do rendimento físico. Uma fita de asfalto a bordeja e nos serve de pista. A mim, às crianças montadas em suas bicicletas e em seus patinetes, aos atletas amadores, aos cães vadios e aos engomados, aos pedestres interessados em se emburacar no metrô, aos idosos em reabilitação, aos contemplativos de queixo erguido para melhor avistar a copa das árvores e também aos casais com seus bebês engolidos por carrinhos corpulentos.

Certa vez, peguei pela frente – e pelas costas – uma conjuração desse tipo. Pai, mãe e filhinho em repouso sobre rodas. A cada volta completa, propositalmente na delonga dos retardatários, tinha a chance de fisgar uma lasca da conversa. Fui petiscando, pestiscando, pestiscando, até encher o prato. O conflito central da narrativa poderia ser assim resumido: chefe de família investe esforço quase nulo para prover o sustento do lar.

A cada giro um novo argumento se encarregava de elevar o volume da arenga conjugal. De maneira que não precisei mais espichar os ouvidos. O conteúdo da discussão se enroscava em meus passos e me acompanhava uns bons metros; perfurava a célula privada do matrimônio para ganhar a acústica do coletivo.

Logo o bebê acordou e pôs-se a berrar. Com razão. Os adultos inflamáveis arruinaram seu passeio vespertino como também o meu, o das crianças montadas em suas bicicletas e em seus patinetes, o dos atletas amadores, o dos cães vadios e o dos engomados, o dos pedestres interessados em se emburacar no metrô, o dos idosos em reabilitação e o dos contemplativos de queixo erguido para melhor avistar a copa das árvores. Toda a comunidade atraída pelos encantos da tarde amena, espremendo a convivência numa fita de asfalto. Um dia a gente aprende.

O que fazer com nossos velhos?

Algumas ideias.

Dizer a sua mãe estancada diante das flores expostas no supermercado: “Minha querida, você já colocou três vasos no carrinho. Além do que, em casa não há mais espaço para flores. Vamos, vamos”. O braço da filha, firme como bengala, vai conduzindo os passos miúdos da senhora para longe da beleza que adoçara sua tarde de outono. Quanta lentidão. Quanta paciência. Quanto amor.

Adiante, no corredor das frutas, outra mãe. Velha. Espera a filha ensacar as maçãs. A pele curtida repousa sobre os gélidos braços da cadeira de rodas. Ela olha para algum lugar. Duvido que enxergue alguma coisa por entre as brumas coladas à face. Mas ela está ali na tarde morna. Sentada em sua cadeira de rodas. Se seus olhos desistiram de ver, sua filha não desistiu de lhe mostrar o mundo.

Outro dia, outra velha. Esta se ampara no amor da neta. Amor que, por sua vez, se escora na gratidão. “Avó melhor que essa não há”. A matriarca que foi alimento, colo, carinho por nada – e por tudo -, hoje lança seu corpo-impotência sobre o corpo-compaixão da neta. Assim vão se movendo – e aguentando. Da cama para a cadeira de rodas. Da cadeira para o sofá. Do sofá para a cadeira estacionada em frente à mesa da cozinha. E de volta à cama. Quanto peso. Quanta força. Quanto amor.

Ai de nós, promessas de velhice. Teremos em nossa retaguarda zelo igual?

Salve, Djavan!

Djavan, o guardador de carros da rua detrás, bem poderia ser meu vizinho. Todo dia me vê passar e, não contente em acenar, grita do outro lado da calçada: “Oi, tia”. Vez sim, vez não, pergunta pelos meus sobrinhos. Se esquece os nomes dos pequenos, pede que eu socorra sua memória. Outro dia, me interpelou preocupado: “Você emagreceu demais. Está tudo bem?”. Tempos atrás, sumiu. Tantas possíveis tragédias me rondaram naquele período…Até que reapareceu, mancando. Contou que foi atropelado por um ônibus e, sem grana para a fisioterapia, recuperou parte da mobilidade andando de bicicleta pelo bairro. Djavan nunca me pediu esmola ou prato de comida. Portanto, nada me deve. É tão somente uma alma gentil, como pouquíssimos condôminos do meu edifício.

Djavan, o guardador de carros da rua detrás, ainda vive. Mas já é possível sentir as baforadas da morte em seu entorno. Franzino sempre foi. Questão de genes. Agora, se arrasta pelo bairro escorado por ossinhos de criança a espetar a pele. Nas mãos, dois canos de PVC a emprestar-lhe alguma misericórdia. Numa existência de improviso em improviso, até na hora da morte é preciso remendar. “Se eu ficar em casa sem trabalhar, não arrumo trocado”, disse certa vez, quando vida ainda havia em seus pulmões. Ontem, depois de longo sumiço, só conseguiu esboçar em sílabas partidas pelo fôlego rarefeito: “A-do-e-ci”. Em seguida, sorriu, ejetando os dentes destacados pelas covas da magreza. Um sorriso marcado para se fechar.

Djavan, o guardador de carros da rua detrás, se foi. Há meses. Desde nossa última conversa, não o vi mais. Vasculhei seu paradeiro no restaurante, no posto de gasolina, na farmácia. Ninguém para confirmar o que antecipara seu vulto cambaleante. A rua ficou mais vazia, embora apinhada de carros. Dia desses notei a chegada de um novo profissional das guias. E pensei em Djavan. Tantas eram as nossas diferenças – de classe social, de cor, de ocupação, de horizonte – mas, nas frestas fadadas a durar migalhas de segundos, ele sorria e eu sorria de volta. Ou o contrário. Nesses instantes, pertencíamos à mesma irmandade.

Travessia

Moro a dois metros da família vizinha. Nossas janelas são comadres por decreto arquitetônico. Partilhamos ano após ano uma intimidade compulsória. E barulhenta. Conheço as mazelas do casal, o chiado da panela, o zumbido do aspirador de pó, as brincadeiras prediletas das duas meninas. Laura, primogênita; Camila, a caçula. Do lado de lá, devem espreitar, com certa curiosidade, minhas andanças noturnas. Os disparos dos dedos no teclado, o chuveiro inundando a madrugada, o telefonema da amiga, o filme, os suspiros.

Uma laje estreita liga nossos apartamentos como passarela alada. Gosto de pensar que um dia firmarei os pés sobre o concreto e adentrarei esta outra casa. Lá encontrarei meu futuro. O homem. As filhas. A família. A mesa posta. A sala habitada por um emaranhado de vozes. Às minhas costas, terei a moldura dos meus anos mais solitários. Gosto de pensar que a qualquer hora poderei fazer o caminho de volta. Não saberia viver sem meus ruídos e silêncios. Ainda que à minha volta tenha todo o amor do mundo.

A seca desceu

Como digo no perfil deste blog, sou uma paulistana importada do Recife. Enredada na sina dos adultos, deixei o mar e me meti debaixo da garoa aos dois anos de idade. Escapei do sotaque lá de cima como também do sentimento de pertença a uma cultura ensolarada e resiliente. Por muito tempo, Pernambuco se espremeu dentro de um cartão-postal. Férias no azul-esverdeado. Esse outro que se sobrepunha ao cinza dos meus dias úteis.

Nesse nordeste-passagem o drama da seca se resumia a uma tela pregada na parede da casa da tia querida que nos dava abrigo a cada punhado de anos. Quanta euforia esparramada pelos cômodos ladrilhados e pelo gramado onde eu, meus irmãos e os primos desfalecíamos no colo da tarde retirante. Moles de brincadeiras adocicadas pela maresia, sabíamos que o asseio nos permitiria tomar lugar à mesa. Comprida e farta de sabores estrangeiros ao meu paladar educado em outra freguesia.

Indo e vindo de alegrias condimentadas como só lá era possível, um chamado me fazia estancar toda vez que cruzava aquele pedaço da sala. Torcia o pescoço e eles permaneciam ali. Bois esquálidos com grandes olhos tristes vagando sobre a terra craquelada. Seca de esperança.

O incômodo, entretanto, se desvanecia pelas mãos maternais do alívio. As agruras do sertão esfolavam povoados distantes da minha cidade, pensava – sim, postiço passou a ser o berço convertido em destino turístico. Naquela época, São Paulo só conhecia a secura do asfalto e dos modos da sua gente talhada na pressa. Seguia protegida pelo acolchoado da prosperidade. No entanto, contra todas as expectativas, a estiagem desceu. O nordeste se instalou na casa paulistana e dessa vez seus filhos-gado desgarrados estão dispensados da culpa. Os baldes – símbolos da penúria lá de cima – agora recaem vazios sobre nossas cabeças sulistas. Quem diria, a capital de grifes caudalosas e cantareiras de terra batida teme o dia em que suas torneiras amanhecerão mudas. Os bois desamparados também somos nós, aqui debaixo.

Brincadeira de boneca

Vovó, ex-tricoteira de agulhas hiperativas, a cada dia se emaranha um bocado mais nos fios da realidade e da invenção. Com eles faz ziguezague, embora enxergue carreiras retilíneas, conforme seu padrão de qualidade – quantas vezes, enquanto me ensinava o tricô, me obrigou a desmanchar fileiras inteiras deformadas pelo excesso de buracos. Sob suas asas, aprendi a demolir o erro e a tramar outra vez o que precisava sair bem feito. Melhor escola, impossível.

Agora, assisto à sua brincadeira em outro sofá, em outras companhias. Velha assaltada pelos quereres e trejeitos de criança, ela embala a boneca da colega na casa de repouso. Ora pisca para nós, cuidando para manter intacta a fantasia da sua mais recente amiga, uma senhora de 90 anos em avançado estágio de Alzheimer, ora exalta a formosura do bebê de plástico. Dá um nó para em seguida desfazê-lo, se amarra à normalidade, mas logo se solta. E começa a fiar delírios.

A sala de visitas é um retângulo de lajotas cor de creme contornado por poltronas de courino preto. Alguns assentos estão carcomidos. Dos pequenos orifícios aflora a espuma gasta. Não mais subterrânea. Só não vê quem vira o rosto. Ali, grande parte dos internos cochila, alheios às suas próprias carcaças, que dirá ao odor de urina que as fraldas, impotentes, são incapazes de reter. Vovó aproveita a tarde para brincar. A boneca reempossou o colo antes rechonchudo e ocupado. Procuro alguma dignidade no gesto. E a encontro. Ao menos, para aliviar o incômodo de flagrar sua imersão num tempo muito anterior à minha chegada à teia de seus descendentes. Como sempre fizera com seus três rebentos e com as oito crias de suas crias e, mais tarde, vigiada por olhares reticentes, também com os dez filhos dos filhos de seus filhos, ela cuida. Melhor do que dormir com a cabeça tombada ou mirar com olhos babados a tela de 60 polegadas, trambolho que nada diz, nada ecoa.

 

O rótulo que seremos

Uma amiga está grávida. Carrega Rafael, chutador de primeira. Na verdade, ela carrega Raphael, com o velho “ph”. Ao saber desse detalhe literalmente familiar, conto pela enésima vez que meu nome, não só o “ph”, é homenagem à bisavó, mulher do século 19. Época em que não havia uma farmácia em cada esquina, somente a pharmácia do bairro chefiada pelo boticário amigo da família. Na minha imaginação, as prateleiras amadeiradas exibiam recipientes de vidro com rótulos, hoje, intraduzíveis. Piso de ladrilhos portugueses, claro. Consigo ouvir o som das botas tac-tac-tac e sentir o cheiro de mofo dos chapéus das damas, amontoado de flores secas e rendas esmaecidas, como as donas.

Sufocado pela poeira do tempo, o “ph” sobrevive, como também a memória dos que partiram. Ao contar pela enésima vez a origem do meu nome, disparei um comentário sobre minha bisavó, temperado com aquela risadinha de quem é superior, jovem, vivo. Em seguida, atinei para o fato de que um único e, por certo, injusto adjetivo se colou à sua pessoa: rabugenta de primeira. Imagine atravessar uma existência engolindo as ironias da vida, suavizando as durezas do cotidiano, o tanque, o forno a lenha, o galinheiro, a viuvez precoce e os quatro filhos, para, no final, ter sua biografia reduzida a uma etiqueta. No caso, em nada lisonjeira.

Há um livro ainda inédito pra mim, cujo título me assombra: “A ausência que seremos”, do colombiano Héctor Abad. Dizem que ele se inspirou no primeiro verso do soneto “Epitáfio”, atribuído ao argentino Jorge Luis Borges, que diz: “Ya somos el olvido que seremos”. Agora me preocupo. No futuro – distante, espero -, minha ausência será lacrada com qual rótulo? Prometo, e vocês são testemunhas, que farei diferente. Rabugenta foi minha bisavó. Eu, também Raphaela com “ph”, serei outra.