Sobre carros, consertos e perdas

O homem que perdeu o filho conserta o motor do carro. A silhueta curvada sob o capô. Os pensamentos em ferramentas, engrenagens ruidosas, fumaça. Será possível? Tem de ser. Torço, da outra ponta da rua, sem ser notada. O que diria a este homem recém-dilacerado? Como flagraria seu desespero a meio metro sem transparecer pena? Como ofereceria algum consolo se sequer conheço o amor maior de todos – muito menos o precipício mais escuro?

O que faço pelas costas do homem debruçado sobre o motor, a 300 metros de distância, é quase infantil. Como acreditar que se a gente imaginar com força, olhos espremidos e dedos em X, a realidade nos atenderá. Pois foi assim que torci para que, naqueles instantes de dedicado serviço sob o sol, a utilidade mais banal o amparasse como a mão que salva. Torci para que, protegido pela tampa metálica, engajado na missão de trazer o carro da família à vida, ele encontrasse alguma trégua, um lapso de esquecimento, um dado raciocínio que o sequestrasse do seu drama, uma anestesia qualquer.

Mas como, se o filho agora ausente sempre o acompanhara nos cuidados solicitados pelos automóveis de vez em quando? Eram os dois amantes das máquinas. Juntos arrumavam, limpavam, poliam, lustravam. Faziam parte da rua como os paralelepípedos, as guias e as árvores mais resistentes. Era bonito passar e cumprimentá-los. Pai e filho partilhando o mesmo zelo, o mesmo empenho, o mesmo tempo. Ele grisalho, senhor. A cria adulta, tão homem quanto o pai. O que conversavam para além dos carros e dos reparos? De que suas risadas se abasteciam? O que seus silêncios compreendiam?

À essa altura do meu voyeurismo, escolho mudar o rumo da torcida. Que esse pai se lembre de cada conversa, de cada piada, de cada camaradagem. Que possa sorrir ou se emocionar sempre que uma lembrança vier se intrometer em seu serviço. E que, um dia, assim permitam as forças todas que nos levam adiante, possa se pacificar ante as coisas que não têm conserto.

Ao final da labuta, torço para que o homem em pé sob o sol feche o capô e leve o filho para passear. Por favor, se mantenha firme. Espremo os olhos. Até que a próxima avaria o solicite e o convença a remexer nas alegrias que ficam.

 

Dois

As madrugadas eram dela. Sempre foram. Tinham combinado. Os olhos tardariam a se fechar e, como prêmio, a cidade desapareceria. Restaria ela, toda, só. Ela e sua pequena célula de vida. Nas horas em que o mundo se retira para se esquecer, escutava seu coração, seu estômago, a lida dos pulmões, uma fisgada no pé. Somente nessa ausência de tudo o que bordeja a vigília conseguia enxergar as funduras que se abrem por dentro. Junto com o espanto – algo nela pulsa, se contorce, sobe e desce, espeta -, emergia a balbúrdia das vozes. Vence quem se desgarrar do tumulto. Elas também tinham acerto. Existência. Gostava de auscultar cada cifra menor dessa sinfonia autônoma. O que se oculta sob o clarão do dia, legítimo se torna no escuro.

Sem se opor, muito menos lamentar, perdera as madrugadas e, com elas, o contorno de célula. O apartamento inerte ecoa agora os suspiros dele. Jorro inevitável após longas baforadas. Jeito de conversar com a noite. Da varanda, o som avança como o viajante que intui o melhor caminho. Cruza a sala, atravessa as frestas da porta, espreita o quarto e, num afago lento, a envolve na cama. Capa que se cola ao corpo. Pele sobre pele. Dupla. Dois respiram a mesma madrugada. Antes de penetrá-la, o ar que ele devolve ao mundo serpenteia livros, discos, quadros, universo, outro, a ser possuído. Com os olhos rendidos, quase esquecida de si, ela saboreia a confirmação. Não mais exílio noturno. Só amor. Pode dormir. Em paz.

Breve reflexão sobre o amor e a tosse

“O amor é inevitável como a tosse”, compara a atriz em cena da peça Arrufos. Um encanto produzido pelo grupo XIX de Teatro.

A frase atinge o coração da coisa.

Vejamos.

A tosse sobe dos pulmões e estoura na boca, assim como a onda arrebenta o que estiver na sua rota.

Tanto em uma quanto em outra há evidente violência. Tossir vezes seguidas sobrecarrega o diafragma. Levar um caldo é experiência a não se repetir.

E o amor?

Tal qual a tosse, pode se mostrar contido, enviesado, sôfrego, escandaloso.

Sangrento.

Sempre fatal na sua aparição. Ainda que venha nos salvar.

Quando se vê, está feito.

Mas, ao contrário da tosse, devasta ao desaparecer.

Ou quando tarda a estourar em nossa boca.

O que fazer com nossos velhos?

Algumas ideias.

Dizer a sua mãe estancada diante das flores expostas no supermercado: “Minha querida, você já colocou três vasos no carrinho. Além do que, em casa não há mais espaço para flores. Vamos, vamos”. O braço da filha, firme como bengala, vai conduzindo os passos miúdos da senhora para longe da beleza que adoçara sua tarde de outono. Quanta lentidão. Quanta paciência. Quanto amor.

Adiante, no corredor das frutas, outra mãe. Velha. Espera a filha ensacar as maçãs. A pele curtida repousa sobre os gélidos braços da cadeira de rodas. Ela olha para algum lugar. Duvido que enxergue alguma coisa por entre as brumas coladas à face. Mas ela está ali na tarde morna. Sentada em sua cadeira de rodas. Se seus olhos desistiram de ver, sua filha não desistiu de lhe mostrar o mundo.

Outro dia, outra velha. Esta se ampara no amor da neta. Amor que, por sua vez, se escora na gratidão. “Avó melhor que essa não há”. A matriarca que foi alimento, colo, carinho por nada – e por tudo -, hoje lança seu corpo-impotência sobre o corpo-compaixão da neta. Assim vão se movendo – e aguentando. Da cama para a cadeira de rodas. Da cadeira para o sofá. Do sofá para a cadeira estacionada em frente à mesa da cozinha. E de volta à cama. Quanto peso. Quanta força. Quanto amor.

Ai de nós, promessas de velhice. Teremos em nossa retaguarda zelo igual?

Travessia

Moro a dois metros da família vizinha. Nossas janelas são comadres por decreto arquitetônico. Partilhamos ano após ano uma intimidade compulsória. E barulhenta. Conheço as mazelas do casal, o chiado da panela, o zumbido do aspirador de pó, as brincadeiras prediletas das duas meninas. Laura, primogênita; Camila, a caçula. Do lado de lá, devem espreitar, com certa curiosidade, minhas andanças noturnas. Os disparos dos dedos no teclado, o chuveiro inundando a madrugada, o telefonema da amiga, o filme, os suspiros.

Uma laje estreita liga nossos apartamentos como passarela alada. Gosto de pensar que um dia firmarei os pés sobre o concreto e adentrarei esta outra casa. Lá encontrarei meu futuro. O homem. As filhas. A família. A mesa posta. A sala habitada por um emaranhado de vozes. Às minhas costas, terei a moldura dos meus anos mais solitários. Gosto de pensar que a qualquer hora poderei fazer o caminho de volta. Não saberia viver sem meus ruídos e silêncios. Ainda que à minha volta tenha todo o amor do mundo.