O que fazer com nossos velhos?

Algumas ideias.

Dizer a sua mãe estancada diante das flores expostas no supermercado: “Minha querida, você já colocou três vasos no carrinho. Além do que, em casa não há mais espaço para flores. Vamos, vamos”. O braço da filha, firme como bengala, vai conduzindo os passos miúdos da senhora para longe da beleza que adoçara sua tarde de outono. Quanta lentidão. Quanta paciência. Quanto amor.

Adiante, no corredor das frutas, outra mãe. Velha. Espera a filha ensacar as maçãs. A pele curtida repousa sobre os gélidos braços da cadeira de rodas. Ela olha para algum lugar. Duvido que enxergue alguma coisa por entre as brumas coladas à face. Mas ela está ali na tarde morna. Sentada em sua cadeira de rodas. Se seus olhos desistiram de ver, sua filha não desistiu de lhe mostrar o mundo.

Outro dia, outra velha. Esta se ampara no amor da neta. Amor que, por sua vez, se escora na gratidão. “Avó melhor que essa não há”. A matriarca que foi alimento, colo, carinho por nada – e por tudo -, hoje lança seu corpo-impotência sobre o corpo-compaixão da neta. Assim vão se movendo – e aguentando. Da cama para a cadeira de rodas. Da cadeira para o sofá. Do sofá para a cadeira estacionada em frente à mesa da cozinha. E de volta à cama. Quanto peso. Quanta força. Quanto amor.

Ai de nós, promessas de velhice. Teremos em nossa retaguarda zelo igual?

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