Brinque, criança, brinque

Por que você está sem graça hoje?, perguntou o menino com as sobrancelhas espremidas. Ele poderia ter ido mais fundo com sua espada. Mas, equilibrando-se entre a possibilidade de estar bravo ou decepcionado, ou as duas coisas, algo nele, amor talvez, quis poupar a mulher da verdade. Disse somente metade do que gostaria de ter dito. Mas ela sabia. E naquele instante pôde enxergar na queixa do menino o rastro azedo de seus dias. Como explicar para a criança que os adultos por vezes se cegam? A graça se desprende dos olhos. Só há breu. Por um tempo. Um tempo sem aviso. Mas não se canse de mim, ela quis dizer. Vou voltar. Um dia vou voltar. E daí poderemos rir o mesmo riso. Estou até vendo. Vamos nos lambuzar dessa alegria boba, que chega pela barriga e faz o corpo inteiro coçar de tão bom que é ser feliz. Façamos melhor. Vá brincando aí, rente às minhas pernas. Escolha um pedaço de tapete. Não vou a lugar algum. Prometo. Vá enchendo os instantes, rodopie, vire uma cambalhota, embarque num foguete e visite a lua, duele com dragões e, quando o cansaço chegar, cochile numa nuvem de algodão. Estarei aqui. Faça isso. Vá saltitando. De brincar em brincar, o dia será outro e mais outro. E quando estiver longe, no alto da árvore, agarrado ao cipó, ou do outro lado da colina, onde é bom de soltar pipa, nem perceberá que eu me sentei ao seu lado no tapete. E que agora meu rosto todo sorri.

Uma hora com Larissa

Ela se sentou no meio. Numa ponta sua mãe estendia os pés para a manicure; na outra, eu fazia o mesmo com as mãos. Até então não havia reparado em seus olhos verdes que cintilavam a cada coisa narrada. Só ouvia sua tagarelice. Mãe, olha quanta coisa eu escrevi nesse caderno hoje.  Tenho lição de português e geografia. E prova marcada de matemática.

Muito entusiasmada a garota ia tirando cadernos e livros da mochila. Folheava as páginas com gosto. Exibia para a mãe a caligrafia e as contas e as histórias. A vida escolar era boa. Sua vida era boa. Larissa irradiava a alegria que encontrava em tudo. Não me contive. Virei o rosto para finalmente conhecê-la. Queria saber daquela menina. Como também me mostrar para ela. Queria que nossas vidas se encontrassem.

Quando revelei ter estudado na mesma escola, vi pela primeira vez seus olhos verdes cintilarem. Duas esmeraldas me encaravam fascinadas. Imediatamente viramos colegas. Primeiro Larissa me cobriu de perguntas. Saciada sua curiosidade de menina, me pegou pela mão e me levou para conhecer sua vida. Se estivéssemos caminhando, certamente ela saltitaria. Sem dúvida, ela saltitaria.

Como uma anfitriã plena nesse papel, Larissa me mostrou seu estojo e a coleção de canetas coloridas. Depois passou rasteira pela agenda, pois queria mesmo me apresentar o bolo de figurinhas metido numa bolsinha em forma de laço. Minhas unhas já estavam na etapa do esmalte, então ela se apressou para ligar o celular e introduzir seus entes queridos: os pais, a avó, os tios, os primos, o cachorro. Também pude vê-la no cinema, com um saco de pipoca no colo. Numa pose em plena brincadeira de boneca com as amiguinhas. No rasinho do mar, feliz como só uma criança pode ser no rasinho do mar. Ainda flagrei a pizza, o parque, o boliche, a festinha.

Larissa e eu conhecemos o que chamam de intimidade. Mas tive que deixá-la. Nosso tempo juntas estava predestinado a caber em uma hora. Assim pensei naquele instante de tchau, foi um prazer conhecê-la. No entanto, mais de mês se passou e estou aqui, falando dela. Larissa se embrenhou em mim.