Certas tardes

Quem acredita que as noites são especialistas em sedução desconhece o apelo de certas tardes. Confesso que a maioria delas passa em rota batida até sumir no escurecer. Acendo as luzes para, como diz minha mãe, não forçar a vista, e recebo a penumbra assim, como um robô programado para apertar interruptores.

Mas certas tardes, ah, certas tardes não aceitam meu desprezo. Não mesmo. O céu pode estar cinza-aborrecido ou da cor da laranja. O cenário é o que menos importa. Crucial é ouvir o chamado. Ele é senhor quando ordena: “Pare um pouco e esqueça de tudo o que insiste em ser lembrado minuto a minuto, esse calabouço sem porta ou janela, e se ponha a perceber a vida acontecendo em você”.

Deus meu, há uma vida acontecendo em mim, estremeço. Vida esta que passaria em horas mortas não fosse o convite de certas tardes. Então, largo tudo e vou para o supermercado mais próximo, aquele cuja lanchonete faz divisa com a seção de flores. Pra mim, não há jeito melhor de entardecer do que bebendo café e comendo bolo, o mais simplório da vitrine. Tomo as plantas por acompanhantes e ali permaneço.

A mágica acontece invariavelmente entre 16:30 e 17:30.  Nessa hora esvoaçante, desgarrada do tempo, consigo sentir o vagar das ruas, ainda poupadas da impaciência do rush. A brisa encontra a pele. O canto dos pássaros tem a pureza de um acorde bem dedilhado. O coração parece absorver o morno do sol poente. O corpo inteiro reage sorrindo. Estou na cidade, mas tudo ao redor – e lá no fundo – é calma. Só posso concluir que certas tardes me chamam para ver e crer na brandura da paz.