Dois

As madrugadas eram dela. Sempre foram. Tinham combinado. Os olhos tardariam a se fechar e, como prêmio, a cidade desapareceria. Restaria ela, toda, só. Ela e sua pequena célula de vida. Nas horas em que o mundo se retira para se esquecer, escutava seu coração, seu estômago, a lida dos pulmões, uma fisgada no pé. Somente nessa ausência de tudo o que bordeja a vigília conseguia enxergar as funduras que se abrem por dentro. Junto com o espanto – algo nela pulsa, se contorce, sobe e desce, espeta -, emergia a balbúrdia das vozes. Vence quem se desgarrar do tumulto. Elas também tinham acerto. Existência. Gostava de auscultar cada cifra menor dessa sinfonia autônoma. O que se oculta sob o clarão do dia, legítimo se torna no escuro.

Sem se opor, muito menos lamentar, perdera as madrugadas e, com elas, o contorno de célula. O apartamento inerte ecoa agora os suspiros dele. Jorro inevitável após longas baforadas. Jeito de conversar com a noite. Da varanda, o som avança como o viajante que intui o melhor caminho. Cruza a sala, atravessa as frestas da porta, espreita o quarto e, num afago lento, a envolve na cama. Capa que se cola ao corpo. Pele sobre pele. Dupla. Dois respiram a mesma madrugada. Antes de penetrá-la, o ar que ele devolve ao mundo serpenteia livros, discos, quadros, universo, outro, a ser possuído. Com os olhos rendidos, quase esquecida de si, ela saboreia a confirmação. Não mais exílio noturno. Só amor. Pode dormir. Em paz.

A noite em que o pagodão venceu

Um bocado de gente adora tomar banho de sol. Poucos, menos convencionais, preferem se deitar sob a lua. Eu gosto mesmo é de me lambuzar de silêncio, este néctar das madrugadas. Tenho a sorte de viver num bairro que exala calmaria noturna. Entre um zumbido de motor e uma freada de ônibus ao longe, podem gotejar bons minutos. Aproveito a apneia urbana para massagear os tímpanos. Um detox auditivo mesmo. Fecho os olhos e torço para que a próxima motoca demore a roncar na avenida. Costumo ser atendida.

Desfio esse tanto de prosa para dar a medida do abuso perpetrado pelo pagodão, munido de amplificador e microfone, que, subvertendo os costumes locais, maculou a pureza sonora da minha madrugada. Cidadã, disquei 153 (Guarda Civil Metropolitana). Dois toques e, do outro lado, um “bom dia” embriagado de sono – ou de indiferença.  Fico sabendo que a polícia militar já havia sido recrutada por uma saraivada de telefonemas queixosos e que estava a caminho. Ingênua, acreditei.

E esperei.

Lá pelas tantas, percebi que havia migrado da ala dos incomodados para a plateia do evento. A vizinhança inteira não teve outra escolha. À exceção dos que dormem feito anjos de pedra, seguimos, com ouvidos despertos, até a saideira, um mix de três ou quatro músicas, como preza a tradição. Batuque a galope e nada da sirene. Esperei por ela como os aposentados nas filas do INSS, os doentes nos corredores dos hospitais, os favelados nas listas dos conjuntos habitacionais.

Quase manhã, a festa acabou, o silêncio, enfim, retomou sua soberania e eu sobrei de olhos abertos, sem sono e sem voz. Difícil dormir com a impotência entalada na garganta.