O horizonte é verde-ondulado

Da minha janela avisto montanhas. Moro em São Paulo. É um milagre. Bem sei. Preciso zelar pela graça que é, todos os dias, repousar os olhos em ondas que almejam o céu. Adulo esse presente como se espantasse o pó do cristal. Ou desse colo ao recém-nascido. Cuidado. Muito cuidado. Se torço levemente o pescoço, para um lado ou outro, estou perdida. Enquadro edifícios. Corpos arbitrários de concreto. Meu verde horizonte se vai. Vence a vocação da cidade. Construção civil. Para-raios. Confinamento. Mas se volto a mirar firme lá adiante, negando que a visão também escorre pelos cantos, estou livre. Respiro e sonho nessa nesga que me sobra como a migalha ao faminto.

Montanhas são camaleoas. Encantam por serem muitas. Hoje se escondem sob um manto rarefeito. Qualquer matiz entre o cinza e o branco.  Mas na madrugada vem a chuva. Ahhhh. Sei que amanhecerão limpas e nítidas como se finalmente pusesse os óculos para melhor enxergá-las. Seu verde nessas horas lembra a bandeira da infância no desenho escolar. Verde-louro. Verdura eterna. Mais vida. Mais amores. Por gerações.

Em dias de sol exibido, sei que continuam ali, atrás da bruma incandescente. Porém, meus olhos fugitivos se espremem. Encará-las nesses momentos é penoso. Arde. Melhor deixá-las torrar e voltar para a toca. Mais tarde a gente se encontra, prometo antes de desenrolar a persiana.

A tarde se cola à noite. Posso ver as curvas alaranjadas das rochas, agora, bronzeadas. Tudo é morno e calmo. Degusto os últimos instantes em sua companhia. Um pássaro estaciona no telhado do vizinho. Distraio-me e pronto. O breu as levou de mim. E se nas alturas as estrelas me ignoram, estou sozinha. Beleza que Deus dá, só amanhã. A moça do tempo prevê céu de brigadeiro. Dia de encontrar montanhas de conto de fadas.  Aqui mesmo, na cidade empedrada.

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