Brinque, criança, brinque

Por que você está sem graça hoje?, perguntou o menino com as sobrancelhas espremidas. Ele poderia ter ido mais fundo com sua espada. Mas, equilibrando-se entre a possibilidade de estar bravo ou decepcionado, ou as duas coisas, algo nele, amor talvez, quis poupar a mulher da verdade. Disse somente metade do que gostaria de ter dito. Mas ela sabia. E naquele instante pôde enxergar na queixa do menino o rastro azedo de seus dias. Como explicar para a criança que os adultos por vezes se cegam? A graça se desprende dos olhos. Só há breu. Por um tempo. Um tempo sem aviso. Mas não se canse de mim, ela quis dizer. Vou voltar. Um dia vou voltar. E daí poderemos rir o mesmo riso. Estou até vendo. Vamos nos lambuzar dessa alegria boba, que chega pela barriga e faz o corpo inteiro coçar de tão bom que é ser feliz. Façamos melhor. Vá brincando aí, rente às minhas pernas. Escolha um pedaço de tapete. Não vou a lugar algum. Prometo. Vá enchendo os instantes, rodopie, vire uma cambalhota, embarque num foguete e visite a lua, duele com dragões e, quando o cansaço chegar, cochile numa nuvem de algodão. Estarei aqui. Faça isso. Vá saltitando. De brincar em brincar, o dia será outro e mais outro. E quando estiver longe, no alto da árvore, agarrado ao cipó, ou do outro lado da colina, onde é bom de soltar pipa, nem perceberá que eu me sentei ao seu lado no tapete. E que agora meu rosto todo sorri.

Dona Francisca

Avancei duas casas no tabuleiro da minha rua e desembarquei no interior. Em frente ao portão, diminuto como a proprietária, bati palmas e esperei por Dona Francisca. Num átimo, esquadrinhei a residência da costureira. Um magrelo corredor ladrilhado com cacos de cerâmica cor de terra conduz à fachada, larga o suficiente para acomodar janela e porta. Dois casebres de madeira flutuam rentes ao beiral do telhado. Iscas de beija-flores. Tristes de tão vazias. Onde estariam seus inquilinos na cidade de concreto? Com que frequência visitavam seus abrigos?

Já ia imaginando bailados aéreos ou mesmo a moradora, cotovelo no batente da janela, ansiando pelo espetáculo sempre adiado, quando dona Francisca apareceu.  Pergunto se está ocupada, se chego em má hora. Sorrindo e alisando o avental, ela explica que lavava a louça, mas que pratos e copos sujos são apenas pratos e copos sujos. Desimportantes. E coisas desimportantes podem esperar. Pra quê pressa? Aliás, confidenciou-me, não entendia por que as pessoas viviam ralhando com o relógio, deixando rastro de vento, bufando e enxugando suor, como se urgente não fosse viver e sim prestar contas a sabe-se lá quem. Em casa de dona Francisca, o depois sabe esperar sua vez.

Mas eu não. Continue lendo