O que fazer com nossos velhos?

Algumas ideias.

Dizer a sua mãe estancada diante das flores expostas no supermercado: “Minha querida, você já colocou três vasos no carrinho. Além do que, em casa não há mais espaço para flores. Vamos, vamos”. O braço da filha, firme como bengala, vai conduzindo os passos miúdos da senhora para longe da beleza que adoçara sua tarde de outono. Quanta lentidão. Quanta paciência. Quanto amor.

Adiante, no corredor das frutas, outra mãe. Velha. Espera a filha ensacar as maçãs. A pele curtida repousa sobre os gélidos braços da cadeira de rodas. Ela olha para algum lugar. Duvido que enxergue alguma coisa por entre as brumas coladas à face. Mas ela está ali na tarde morna. Sentada em sua cadeira de rodas. Se seus olhos desistiram de ver, sua filha não desistiu de lhe mostrar o mundo.

Outro dia, outra velha. Esta se ampara no amor da neta. Amor que, por sua vez, se escora na gratidão. “Avó melhor que essa não há”. A matriarca que foi alimento, colo, carinho por nada – e por tudo -, hoje lança seu corpo-impotência sobre o corpo-compaixão da neta. Assim vão se movendo – e aguentando. Da cama para a cadeira de rodas. Da cadeira para o sofá. Do sofá para a cadeira estacionada em frente à mesa da cozinha. E de volta à cama. Quanto peso. Quanta força. Quanto amor.

Ai de nós, promessas de velhice. Teremos em nossa retaguarda zelo igual?

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Brincadeira de boneca

Vovó, ex-tricoteira de agulhas hiperativas, a cada dia se emaranha um bocado mais nos fios da realidade e da invenção. Com eles faz ziguezague, embora enxergue carreiras retilíneas, conforme seu padrão de qualidade – quantas vezes, enquanto me ensinava o tricô, me obrigou a desmanchar fileiras inteiras deformadas pelo excesso de buracos. Sob suas asas, aprendi a demolir o erro e a tramar outra vez o que precisava sair bem feito. Melhor escola, impossível.

Agora, assisto à sua brincadeira em outro sofá, em outras companhias. Velha assaltada pelos quereres e trejeitos de criança, ela embala a boneca da colega na casa de repouso. Ora pisca para nós, cuidando para manter intacta a fantasia da sua mais recente amiga, uma senhora de 90 anos em avançado estágio de Alzheimer, ora exalta a formosura do bebê de plástico. Dá um nó para em seguida desfazê-lo, se amarra à normalidade, mas logo se solta. E começa a fiar delírios.

A sala de visitas é um retângulo de lajotas cor de creme contornado por poltronas de courino preto. Alguns assentos estão carcomidos. Dos pequenos orifícios aflora a espuma gasta. Não mais subterrânea. Só não vê quem vira o rosto. Ali, grande parte dos internos cochila, alheios às suas próprias carcaças, que dirá ao odor de urina que as fraldas, impotentes, são incapazes de reter. Vovó aproveita a tarde para brincar. A boneca reempossou o colo antes rechonchudo e ocupado. Procuro alguma dignidade no gesto. E a encontro. Ao menos, para aliviar o incômodo de flagrar sua imersão num tempo muito anterior à minha chegada à teia de seus descendentes. Como sempre fizera com seus três rebentos e com as oito crias de suas crias e, mais tarde, vigiada por olhares reticentes, também com os dez filhos dos filhos de seus filhos, ela cuida. Melhor do que dormir com a cabeça tombada ou mirar com olhos babados a tela de 60 polegadas, trambolho que nada diz, nada ecoa.

 

Sala de espera

Vovó desistiu. Não quer banho, comida, novela. Passeio, então, que chatice! Diz que todos têm a sua hora e que a dela há de chegar. Aguarda o sinal da saída debaixo dos lençóis. E toda noite se perfuma para o caso de despertar do lado de lá.

Também já escolheu a cor das flores: lilás, como a parede do quarto. Sua preferida. Digo que ela deveria ser grata. Foi poupada de agulhas, paralisia, espasmos, sufocamento. É uma idosa tardia, porém saudável. Um trevo de folhas quase centenárias. Ela me corrige. “Não, filhinha, tenho a doença do esquecimento”. Inclinada desde jovem a certo drama, enquanto decreta sua sentença, desliza o indicador de uma extremidade à outra da testa, como se puxasse um zíper invisível. “Os nomes me escapam. Além do que, estou muito cansada. Mesmo sem fazer nada. Nada. Não faço mais nada. Apetite não tenho, muito menos paciência para a televisão”, suspira pesado e emenda: ” Não queira ficar velha, minha filha”.

Não cabe a mim decidir. Como a senhora diz, todos têm a sua hora. Compramos ingresso para a mesma caravana, esqueceu? “Não se preocupe, filhinha, já conversei com Jesus. Você ainda será muito feliz”. Gosto de ouvir isso. Desejo de vó tem poder. E, considerando que a reza virou atividade única, creio que suas solicitações avançam pela fila preferencial. A insistência faz milagres. Como abrir mão dessa regalia? Uma rezadeira particular a rogar por mim dia e noite.

Vó, sei que o tédio é de matar. Por isso, a despeito do meu egoísmo, me esforçarei para sorrir ao senti-la cruzar, perfumada, o portão de embarque.