Dois

As madrugadas eram dela. Sempre foram. Tinham combinado. Os olhos tardariam a se fechar e, como prêmio, a cidade desapareceria. Restaria ela, toda, só. Ela e sua pequena célula de vida. Nas horas em que o mundo se retira para se esquecer, escutava seu coração, seu estômago, a lida dos pulmões, uma fisgada no pé. Somente nessa ausência de tudo o que bordeja a vigília conseguia enxergar as funduras que se abrem por dentro. Junto com o espanto – algo nela pulsa, se contorce, sobe e desce, espeta -, emergia a balbúrdia das vozes. Vence quem se desgarrar do tumulto. Elas também tinham acerto. Existência. Gostava de auscultar cada cifra menor dessa sinfonia autônoma. O que se oculta sob o clarão do dia, legítimo se torna no escuro.

Sem se opor, muito menos lamentar, perdera as madrugadas e, com elas, o contorno de célula. O apartamento inerte ecoa agora os suspiros dele. Jorro inevitável após longas baforadas. Jeito de conversar com a noite. Da varanda, o som avança como o viajante que intui o melhor caminho. Cruza a sala, atravessa as frestas da porta, espreita o quarto e, num afago lento, a envolve na cama. Capa que se cola ao corpo. Pele sobre pele. Dupla. Dois respiram a mesma madrugada. Antes de penetrá-la, o ar que ele devolve ao mundo serpenteia livros, discos, quadros, universo, outro, a ser possuído. Com os olhos rendidos, quase esquecida de si, ela saboreia a confirmação. Não mais exílio noturno. Só amor. Pode dormir. Em paz.

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